Meio Ambiente e Biodiversidade Saúde

Microplásticos: Assim na terra como no céu

A alta produção e a dependência do plástico no cotidiano do ser humano é um problema que já vem sendo exposto há muito tempo. Isto porque existe uma quantidade enorme de produtos feitos de plástico, muitas vezes descartáveis, que se acumulam no meio ambiente pela alta durabilidade deste material e dificuldade de decomposição, afetando todos os sistemas biológicos. Uma garrafa PET, por exemplo, leva em torno de 450 anos para se decompor, um canudo, utilizado apenas uma vez e descartado, demora mais ou menos 200 anos, e uma rede de pesca, em torno de 600 anos.

Podemos dizer que a “Revolução dos plásticos” teve seu início em 1907, quando o químico Leo Hendrik Baekeland – considerado o pai da indústria do plástico – criou o primeiro plástico totalmente sintético e comercialmente viável. Ou seja, pelo tempo de decomposição do material, notamos que o primeiro produto do mundo feito de plástico existe até hoje. Ilhas enormes de plástico vêm sendo formadas nos oceanos através das correntes marinhas, e pesquisadores afirmam que até 2050 haverá mais plástico nos oceanos do que peixes.

O plástico, quando descartado no ambiente, sofre uma série de processos físicos, químicos e biológicos, sofre alterações estruturais, sendo fragmentado em partículas cada vez menores. As partículas menores que 5 mm são chamadas de microplásticos, e são ainda mais preocupantes do que os plásticos de tamanhos visíveis. Por serem microscópicos podem ser inseridos em todos os sistemas biológicos com facilidade, passando por toda a cadeia alimentar. Um exemplo clássico é o caso da afinidade dos microplásticos com o plâncton marinho. Pequenos crustáceos se alimentam desse plâncton, peixes se alimentam desses pequenos crustáceos, e nós nos alimentamos desses peixes. Este processo de acúmulo de substâncias em organismos vivos é chamado de bioacumulação, e nessa perspectiva podemos notar que nós estamos literalmente comendo nosso próprio lixo.

Bioacumulação dos microplásticos: Quando os predadores se alimentam das presas menores, o plástico sofre uma bioacumulação na cadeia alimentar, chegando às nossas mesas.

E este caso não está restrito a ingestão de organismos marinhos, apesar dessa informação ter ganhado um maior foco pelo maior conhecimento e desenvolvimento de pesquisas na área. Se você pensa que adotar uma alimentação livre de frutos do mar ou até mesmo um estilo de vida vegano resolveria o problema, infelizmente não é bem assim. Há pouco tempo foi visto que os microplásticos também estão presentes no sal de cozinha, na água que bebemos e em alimentos como alface, brócolis, batata, trigo e frutas. Durante décadas, cientistas acreditaram que as partículas de plástico eram simplesmente grandes demais para atravessarem as barreiras físicas do tecido vegetal. Mas um estudo publicado em Julho de 2020 e realizado pela Academia Chinesa de Ciências demonstrou que raízes podem sim absorver microplásticos do solo ou da água, e estes podem ser transferidos das raízes para outras partes comestíveis dos vegetais, legumes e frutas.

Além disso, os microplásticos possuem alta afinidade com diversas toxinas, microrganismos e metais pesados. Eles atuam como captadores de poluentes orgânicos persistentes (POPs), sendo bastante nocivos e diretamente ligados a disfunções hormonais, imunológicas, neurológicas e reprodutivas. Portanto, além de estarmos inconscientemente inserindo o microplástico como parte de nosso organismo, junto com ele também estamos acumulando em nossos tecidos todas as diversas toxinas que os compõem.

A maioria das pesquisas para detectar microplásticos no ambiente foram feitas nos oceanos, pois foi o local onde foram notados pela primeira vez. Mas lentamente, cientistas também foram percebendo sua existência em sistemas de água doce, no solo, nos diversos ecossistemas em que nossos olhos são capazes de alcançar, até olharem para cima, para o ar invisível que nos circunda. O primeiro estudo sobre a presença de microplásticos na atmosfera foi realizado em Paris e publicado em 2015, e em 2018 uma nova pesquisa que abrangeu maiores perspectivas ao redor do mundo trouxe resultados extremamente preocupantes.

Grupos de pesquisa foram reunidos para fazerem amostragens em diferentes regiões, inclusive regiões mais remotas. Coletaram amostras de precipitação atmosférica por meio de funis, e também utilizaram um segundo método baseado no bombeamento e filtragem do ar. Microplásticos foram encontrados nas amostras coletadas em todas as regiões, até mesmo em uma montanha de Hamburgo sem vestígios de presença humana e em regiões polares, sugerindo que esses microplásticos podem ser aerotransportados e que a movimentação deste material entre ambientes aquáticos, terrestres e aéreos compõe um ciclo dinâmico, de forma que podemos encontrar plástico literalmente em todo canto do planeta.

Fonte: Artigo “Mini-review of microplastics in the atmosphere and their risks to humans”, publicado na Science of the Total Environment (2018) por G. Chen, Q. Feng and J. Wang

De acordo com as pesquisas, as fibras são a forma dominante de microplásticos na atmosfera, sendo estas derivadas, principalmente, de produtos têxteis. Até mesmo em consequência do atrito durante o uso, na lavagem e secagem, pequenas fibras se desprendem das roupas, chegando facilmente no meio ambiente. Além disso, outros resíduos como os chamados filmes e espumas, também foram encontrados, tendo como possíveis origens a degradação de embalagens plásticas, sacolas, produtos de poliestireno, resíduos de aterros, emissões industriais e partículas liberadas no tráfego. A abrasão de pneus e estradas é vista como uma fonte potencial de liberação de microplásticos, que são ressuspendidos na poeira, no vento e são facilmente transferidos para o ar atmosférico.

A presença de microplásticos no ar representa um grande risco à saúde, já que podemos estar inalando continuamente estes materiais em meio a um conhecimento ainda muito escasso e recente. Os estudos que examinam esses possíveis danos ao corpo humano ainda são poucos, mas resíduos de plástico já são conhecidos por causar doenças ocupacionais em trabalhadores da indústria, que são expostos a altas concentrações de partículas de plástico por várias horas ao dia. Muitos estudos revelaram que há uma ligação entre as fibras sintéticas inaladas e lesões respiratórias. Dois terços dos trabalhadores examinados sofriam de sintomas respiratórios frequentes, como irritação na garganta, falta de ar, tosse, dor no peito e inflamações – sintomas que podem levar à fibrose nos pulmões e, às vezes, até causar câncer. Sabendo que os microplásticos são tóxicos por absorverem substâncias químicas, metais pesados e diversos microrganismos, as preocupações em relação às consequências na saúde são ampliadas.

Mais estudos são necessários para identificar as concentrações de microplásticos aerotransportados, suas fontes, os fatores envolvidos na distribuição entre diferentes ecossistemas, os contaminantes adsorvidos aos microplásticos aerotransportados e os efeitos da inalação e ingestão de microplásticos na saúde, para uma maior compreensão e melhor desenvolvimento de medidas preventivas e tratamentos.

Referências

G. Chen, Q. Feng and J. Wang, Mini-review of microplastics in the atmosphere and their risks to humans, Science of the Total Environment (2018), https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2019.135504

Gabriela Falcão é Bacharel em Ciências do Mar, licenciada em Biologia, Mestra em Bioprodutos e Bioprocessos pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, e atualmente é Doutoranda em Biotecnologia Marinha pelo Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira – IEAPM. Atua com Ecologia de Ambientes Recifais, Biologia Molecular, Genética e Microbiologia.

Insta: @gabsfalcao

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