Saúde

Resistência a antibióticos: Uma pandemia silenciosa

Devido ao momento alarmante no qual estamos vivenciando, a palavra “pandemia” faz-se presente em nosso cotidiano. Porém, já faz tempo que o mundo convive com uma pandemia considerada “silenciosa”, e que vem crescendo a níveis bastante preocupantes. Silenciosa, porque parece comum o ato de tomarmos um antibiótico ao ficarmos doentes, não é mesmo? Mas, basicamente, aí que está a razão. Você sabia que a resistência a antibióticos por determinadas bactérias é, atualmente, uma das maiores ameaças à saúde global?

Principalmente através do uso indiscriminado e incorreto destes medicamentos, surgem as chamadas superbactérias – resistentes aos diversos fármacos disponíveis para tratamentos de diferentes doenças. Naturalmente, os microrganismos se reproduzem muito rápido, possuem facilidade de adquirir material genético de fontes externas, o que causa mutações genéticas, e são capazes de trocar genes com outros microrganismos de forma a colaborar com sua sobrevivência em determinadas condições. Estes fatores contribuem para uma alta variabilidade genética, característica fundamental no processo de resistência. E embora existam sim alguns novos antibióticos em desenvolvimento, não se espera que nenhum deles seja efetivo contra as formas mais perigosas de bactérias resistentes aos antibióticos.

Aqui podemos citar a Staphylococcus aureus como sendo uma das superbactérias mais preocupantes atualmente. Esta espécie é resistente à meticilina – pertencente ao grupo das penicilinas, um tipo de antibiótico – e pode ser encontrada no mundo todo, normalmente em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Aqui é interessante mencionar que, apesar de existirem uma infinidade de bactérias de mesma espécie que são encontradas em qualquer região ao redor do mundo, também existem “nichos” específicos, onde uma determinada espécie pode ser mais facilmente encontrada. Por exemplo, a nossa microbiota intestinal terá composição diferente de indivíduo a indivíduo, sendo influenciada, principalmente, pela alimentação, condições sanitárias e ambientais, e estilo de vida. Porém, como seres humanos, também compartilhamos de algumas espécies de bactérias fixas – um core microbiano –, a maioria pertencendo aos gêneros Bacteroides, Clostridium e Fusobacterium, por exemplo. Neste exemplo, temos o nicho “intestino humano” como sendo o local onde determinadas bactérias são mais facilmente encontradas. No caso da Staphylococcus aureus, seu nicho são as UTIs, onde são capazes de colonizar, até mesmo, instrumentos médicos e preocupam pelo fato de atingirem pacientes que já se encontram debilitados naquele local.

E ainda neste cenário, em abril de 2014, um estudo publicado no The New England Journal of Medicine alertou sobre uma nova cepa da Staphylococcus aureus , ainda mais preocupante. Chamada de VRSA (Vancomycin Resistent Staphylococcus aureus) ou BR-VRSA (por ter sido descoberta aqui no Brasil), esta superbactéria foi identificada em um paciente que estava internado no Hospital das Clínicas de São Paulo, e ganhou atenção da comunidade científica, pois além dela ser resistente à maioria dos antibióticos que existem, ela também possui um genoma diferente de outras cepas anteriormente identificadas nas UTIs. A diferença é que seu material genético também possui características de bactérias encontradas fora do ambiente hospitalar. Ou seja, sua disseminação pode ser facilitada, pois elas não estão restritas a condições hospitalares. São cepas igualmente adaptadas a condições externas, o que pode gerar um problema sério de saúde pública.

Mas como exatamente essas bactérias desenvolvem a resistência a antibióticos?

O uso inadequado de antibióticos é o principal fator que tem contribuído para o surgimento dessas superbactérias. Vamos supor que um paciente com uma inflamação na garganta começa a tomar um antibiótico que o médico prescreveu para uso por 7 dias. No início do tratamento, as bactérias “mais fracas” começam a morrer e os sintomas começam a desaparecer. As bactérias restantes começam a lutar por sua adaptação e sobrevivência naquelas novas condições e, como dito anteriormente, as bactérias têm alta capacidade de resiliência. No 4° dia utilizando o medicamento, o paciente sente-se curado por não apresentar mais sintomas, porque realmente a maioria das bactérias patogênicas que estavam causando a inflamação morreram. E no 5° dia o paciente não toma mais o antibiótico, pois pela falta de sintomas, não vê necessidade.

Porém, algumas bactérias ainda podem estar presentes e, por terem sido expostas ao antibiótico em pequena dose, pela não continuidade do tratamento, estas cepas tornam-se mais capazes de desenvolver resistência a este medicamento. Essas bactérias podem continuar se reproduzindo, o paciente pode voltar a ter uma inflamação na garganta, que será ainda mais forte, necessitando de outro tipo de antibiótico. E esta resistência ainda pode perdurar por toda a vida do paciente se ele fizer uso exacerbado destes medicamentos. Ao desenvolver uma outra doença em outro período de sua vida, os antibióticos podem não surtir efeito. E por isso, a situação é bastante preocupante.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada ano, cerca de 700 mil pessoas morrem, em todo o mundo, devido a infecções resistentes aos antibióticos. Em 2016, cerca de 490 mil pessoas no mundo tiveram tuberculose bacteriana resistente a diversos medicamentos. E no mesmo ano, o Ministério da Saúde da Inglaterra revelou que, sem o devido controle deste problema, em 2050, as infecções bacterianas serão responsáveis por mais de 10 milhões de mortes no mundo. Este número é maior do que a estimativa de mortalidade por câncer para o mesmo ano, sendo que o câncer é uma das doenças mais letais que existem. Doenças comuns, como infecções respiratórias, urinárias e infecções sexualmente transmissíveis poderão se tornar intratáveis com os medicamentos que temos disponíveis hoje. A descoberta da penicilina por Alexander Fleming em 1928 foi um marco na história da medicina e impulsionou a facilidade de tratamento de diversas doenças, aumentando a expectativa de vida. Mas agora, estamos caminhando para uma Era pós antibióticos, em que infecções comuns e ferimentos leves podem voltar a matar.

A causa da resistência aos antibióticos, além do uso incorreto, também está diretamente relacionada com o uso comum. Muitas vezes é administrado um antibiótico sem saber se o paciente realmente está com uma doença bacteriana. Há um certo desconhecimento da população em relação a estes medicamentos, que combatem apenas infecções causadas por bactérias, mas por muitas vezes são utilizados, por exemplo, em casos virais erroneamente. Além disso, em países sem diretrizes de tratamento padrão, antibióticos são prescritos em excesso por profissionais da saúde, e são fáceis de serem comprados sem prescrição.

Quais medidas já estão em andamento para controlar esta situação?

A citar como exemplo, desde 2013 está em andamento o chamado Projeto Antimicrobial Stewardship (Projeto de Gestão Antimicrobiana), da MSD (Merck Sharp and Dohme; um dos maiores laboratórios farmacêuticos do mundo). O Projeto tem como norte a compreensão de que cada hospital possui um padrão específico de bactérias mais frequentes. Mapeando essa microbiota mais frequente, os responsáveis estabelecem um protocolo de priorização do uso de determinados antibióticos com ação específica para as bactérias locais, promovendo um tratamento mais direcionado e assertivo.

Além disso, em 2018 a Fiocruz lançou o Plano Nacional de Prevenção e Controle de Resistência aos Antimicrobianos. Segundo o documento, os objetivos incluem o aumento da conscientização da população e o fortalecimento da base científica por meio da vigilância e pesquisa. O Plano também traz questões importantes relacionadas ao saneamento, higiene e prevenção, a otimização no uso de medicamentos na saúde humana e animal, e o aumento do investimento em novas terapias para o tratamento de infecções bacterianas, métodos de diagnóstico e vacinas. É interessante mencionar que a Fiocruz incentiva a educação e a divulgação científica, tendo como objetivo conscientizar e aproximar a sociedade destas realidades. E, por isso, o Plano também inclui uma cartilha bastante didática e informativa sobre estas questões. Para acessar a cartilha em PDF, clique na imagem abaixo:

Clique na imagem para acessar a cartilha

Por fim, o que podemos fazer para nos prevenir?

  • Primeiramente, não se automedique, ouça um profissional da saúde.
  • Quando um antibiótico lhe for prescrito, siga a dosagem recomendada pelo médico e faça uso durante o período estabelecido, nem mais dias, nem menos dias.
  • Não utilize medicamentos fora do prazo de validade.
  • Evite contato com pessoas doentes.
  • Lembre-se de lavar bem as mãos e os alimentos para evitar contaminação.
  • Cuide de seu corpo e de sua imunidade.
  • E mantenha suas vacinas em dia.

Referências

Fiocruz (2018). Resistência bacteriana aos antibióticos. O que você deve saber e como prevenir. Disponível em: http://www.fiocruz.br/ioc/media/resistencia_bacteriana_antibioticos_ioc_fiocruz.pdf

Fiocruz (2019). Antibióticos: resistência de microrganismos é grave ameaça à saúde global. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/noticia/antibioticos-resistencia-de-microrganismos-e-grave-ameaca-saude-global

OPAS/OMS Brasil (2017). Folha informativa – Resistência aos antibióticos. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5664:folha-informativa-resistencia-aos-antibioticos&Itemid=812

Gabriela Falcão é Bacharel em Ciências do Mar, licenciada em Biologia, Mestra em Bioprodutos e Bioprocessos pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, e atualmente é Doutoranda em Biotecnologia Marinha pelo Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira – IEAPM. Atua com Ecologia de Ambientes Recifais, Biologia Molecular, Genética e Microbiologia.

Insta: @gabsfalcao

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