Animais e plantas Meio Ambiente e Biodiversidade

Os mistérios dos mamíferos que brilham sob a luz ultravioleta

A biofluorescência – capacidade de determinadas proteínas absorverem luz de curto comprimento de onda e reemitirem um comprimento de onda mais longo e menos energético – já é de conhecimento em várias espécies animais: corais, peixes (incluindo tubarões e enguias), uma espécie de tartaruga-marinha, anfíbios e aves. Mas você sabia que algumas espécies de mamíferos também possuem biofluorescência?

Na década de 1980, analisando animais em museus, cientistas descobriram que a pele e os pelos de algumas espécies de gambás (mamíferos do grupo dos marsupiais), dentre eles o gambá-da-virgínia (Didelphis virginiana), brilhavam quando colocados no escuro e expostos à luz ultravioleta (UV). Já em 2012, esse mesmo acontecimento foi relatado no crânio e dentes do esquilo raposa (Sciurus niger). Em 2019, um grupo de cientistas dos Estados Unidos, liderado pela Dra. Paula Anich, observou a biofluorescência em outras três espécies de esquilos – os esquilos-voadores, do gênero Glaucomys, do grupo dos placentários – em que a pelagem, quando exposta à luz UV, apresentava a coloração rosa fluorescente. E neste ano de 2020, esse mesmo grupo descobriu que o ornitorrinco (Ornithorhynchus anatinus), um mamífero da ordem dos monotremados, também apresenta a biofluorescência em seus pelos, variando do verde ao ciano.

E as descobertas não pararam por aí! Incentivado pelos trabalhos com os esquilos e com o ornitorrinco, o paleontólogo e curador do Museu da Austrália Ocidental (Western Australian Museum), Dr. Kenny Travouillon, decidiu fazer alguns testes com a luz UV na coleção de mamíferos do museu. E a descoberta foi incrível! Outros marsupiais, como os vombates (animais herbívoros), as toupeiras marsupiais (animais que se alimentam de invertebrados e nozes) e os bilbies (animais que se alimentam de flores e insetos), também brilharam com a luz UV. Já os marsupiais carnívoros não brilharam; como são predadores, caso fossem biofluorescentes, poderiam ter dificuldade durante a caça, já que seriam detectados com facilidade pelas presas que enxergam a luz ultravioleta.

A mais recente descoberta da biofluorescência em mamíferos foi realizada neste início de dezembro por pesquisadores do Zoológico de Toledo, em Ohio, Estados Unidos. Também inspirado pela novidade de mamíferos australianos apresentarem essa característica, Jacob Schoen, técnico do zoológico, testou em diversos animais taxidermizados e descobriu que o marsupial diabo-da-tasmânia (Sarcophilus harrisii), espécie nativa da Austrália e ameaçada de extinção, também é biofluorescente. Sob a luz UV, é possível enxergar uma coloração azul no interior das orelhas e ao redor do focinho e dos olhos. O interessante é que essa espécie é carnívora, o que confronta a ideia de detecção do predador pela presa.

Mas qual seria a vantagem de ser biofluorescente? Uma hipótese que ainda precisa ser testada é de que essa característica é importante em ambientes com pouca luminosidade. Os ornitorrincos, os esquilos-voadores e os gambás-da-virgínia possuem hábito crepuscular e noturno. A absorção de luz e reemissão em ondas mais longas pode fazer com que estes animais se tornem menos visíveis aos predadores sensíveis aos raios UV, ou seja, pode ser uma forma de camuflagem. Já no caso dos diabos-da-tasmânia, uma possível explicação é essa característica fazer parte da comunicação.

Outra dúvida entre os pesquisadores é se a biofluorescência é uma característica ancestral aos mamíferos ou se ela surgiu de forma independente nos diferentes grupos: marsupiais, monotremados e placentários. Para a Dra. Sarah Munks, especialista em ornitorrincos e pesquisadora da Escola de Ciências Naturais da Universidade da Tasmânia, são necessários mais estudos. Em relação aos ornitorrincos, o número de animais analisados é muito pequeno (apenas três indivíduos foram avaliados: dois pelo grupo liderado pela Dra. Anich e um pelo Dr. Travouillon), o que demanda novas pesquisas.

E qual o próximo passo para estes pesquisadores? Os estudos em animais vivos podem confirmar essa descoberta da biofluorescência em mamíferos, além de trazer respostas sobre a função desta característica. Ou talvez, a biofluorescência não desempenha nenhuma função e foi apenas retida por algumas espécies de mamíferos ao longo da sua evolução. Sem dúvida alguma, a biofluorescência em mamíferos ainda é um mistério a ser desvendado!

Links dos estudos:
Biofluorescence in the platypus (Ornithorhynchus anatinus)
Ultraviolet fluorescence discovered in New World flying squirrels (Glaucomys)
Labile pigments and fluorescent pelage in didelphid marsupials
Fluorescence provides evidence of congenital erythropoietic porphyria in 7000-year-old specimens of the eastern fox squirrel (Sciurus niger) from the Devil’s Den

Ana Claudia de Almeida é bacharel e licenciada em Ciências Biológicas pela UNIOESTE, mestre em Zoologia pela UFPR e doutoranda em Ecologia e Conservação pela UFMS. Atualmente, trabalha com os efeitos das alterações climáticas e de paisagem sobre a fauna, e com o turismo de observação de aves.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: