Animais e plantas Meio Ambiente e Biodiversidade

Integrando fisiologia e comportamento: é possível avaliar a qualidade de vida dos animais silvestres em cativeiro?

Por Ana Claudia 02/11/2020

A qualidade de vida e o bem-estar de animais silvestres em cativeiro têm sido alvo de estudos por diversos pesquisadores no mundo todo. Muitos dos animais provenientes do tráfico, resgate de animais atropelados, feridos ou que por muitos anos estiveram em circos podem não conseguir mais retornar ao seu habitat natural e, consequentemente, deverão permanecer em cativeiro sob cuidados de biólogos e veterinários. Outros, mesmo que possam retornar, deverão permanecer um determinado tempo em cativeiro para sua reabilitação. Centros de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), Centros de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) e zoológicos são alguns dos locais que recebem e reabilitam e/ou mantêm estes animais.
    Mas viver em cativeiro pode ter algumas consequências quando o local não é adequado para que suas necessidades sejam supridas. O estresse pode ser desencadeado devido ao espaço inadequado, à ausência de locais para esconderijo, à disputa por território e alimento, exposição por longos períodos a uma grande quantidade de visitantes, ou falta de estímulos físicos e mentais. Lesões, doenças, má nutrição, atrofia muscular, expressão de comportamentos que não estão presentes no ambiente de vida livre, depressão do sistema imunológico são alguns dos indicativos de baixa qualidade de vida.
    Em vida livre, os animais silvestres recebem diversos estímulos que os colocam sob estresse: presença de predadores, competição por recursos alimentares, disputas por parceiros, defesa de território. Esse estresse é chamado de estresse agudo, que envolve a liberação de hormônios chamados catecolaminas – a adrenalina e a noradrenalina. Esses hormônios aumentam a frequência cardíaca e respiratória, promovendo o que chamamos de reação de luta ou fuga. Entretanto, receber estímulos estressores por longos períodos ativa a liberação de glicocorticoides na corrente sanguínea, como o cortisol (presente em peixes, aves e mamíferos) e a corticosterona (presente em aves, répteis, anfíbios e mamíferos). Altas concentrações dos glicocorticoides no corpo por muito tempo leva ao estresse crônico e pode causar a depressão do sistema imunológico e suscetibilidade a infecções, distúrbios no sistema reprodutivo, alterações comportamentais e nas atividades ligadas ao aprendizado, migração, territorialismo e escolha de parceiros reprodutivos.
    Avaliar o estresse e a qualidade de vida dos animais silvestres cativos auxilia na elaboração de manejos adequados para sua permanência no cativeiro. Por muito tempo, o estresse foi avaliado por meio da concentração dos glicocorticoides no sangue. Contudo, a manipulação do animal para colheita de sangue estressa os animais. Sendo assim, outras técnicas de avaliação têm sido desenvolvidas nas últimas décadas para não interferir negativamente no bem-estar animal, como a avaliação do comportamento e da concentração dos metabólitos dos glicocorticoides.
    Mas o que são esses metabólitos de glicocorticoides? Metabólitos nada mais são do que os produtos da transformação de substâncias por meio de reações químicas. Esses produtos podem ser eliminados por meio de excretas (fezes e urina) ou depositados em penas, no caso das aves. É possível coletar penas após a muda que ocorre para crescimento de novas penas; nessas penas, estarão presentes os metabólitos da corticosterona e do cortisol depositados durante o crescimento dela, o que permite estudar a sobrevivência das aves em períodos críticos de sua vida, como o alto gasto energético para a reprodução e para tolerar baixas temperaturas no inverno. No caso das excretas, principalmente fezes, podemos coletar diversas amostras para avaliar a variação da quantidade dos metabólitos dos glicocorticoides ao longo do dia, de semanas, meses ou anos, ou seja, desde curto a longo período. Dependendo da concentração destes metabólitos nas amostras coletadas, podemos compreender se o animal está sob estresse crônico ou não. Ambos os métodos não necessitam da manipulação do animal.
    Simultaneamente à avaliação da concentração dos metabólitos de glicocorticoides, é necessária a avaliação das respostas comportamentais aos estímulos (ou falta deles) recebidos no ambiente de cativeiro. As funções biológicas dos animais estão intimamente associadas ao comportamento, pois se não há estímulos sensoriais, desafios, oportunidades para o animal expressar o seu comportamento natural, este animal apresentará, ao longo do tempo,  diversos comportamentos incomuns, que não são vistos em vida livre. Alguns desses comportamentos são o pacing, muito comum em felinos, que ficam andando de um lado para o outro no recinto por longos períodos, arrancamento de pelos ou penas, e ociosidade, que pode levar ao acúmulo de gordura e desenvolvimento de doenças cardíacas.
    Portanto, a manutenção de animais silvestres em cativeiro necessita de diversos estudos. Vários cientistas ao redor do mundo estão envolvidos na avaliação do estresse em cativeiro, produzindo pesquisas que são essenciais para garantir maior qualidade de vida para estes animais. No Brasil, a Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAB) desenvolveu uma rede onde pesquisadores da área podem trocar informações sobre cuidados aos animais cativos. Se quiser saber mais sobre essa associação, visite o link https://www.azab.org.br/home. E para se aprofundar no tema, deixo o link para o artigo em português “Glicocorticoides, comportamento e enriquecimento ambiental: avaliação da qualidade de vida em aves silvestres cativas”, de minha autoria em conjunto com o Prof. Dr. Nei Moreira (https://revistas.ufpr.br/veterinary/article/view/47726/39604).

Ana Claudia de Almeida é bacharel e licenciada em Ciências Biológicas pela UNIOESTE, mestre em Zoologia pela UFPR e doutoranda em Ecologia e Conservação pela UFMS. Atualmente, trabalha com os efeitos das alterações climáticas e de paisagem sobre a fauna, e com o turismo de observação de aves.

Edição e Arte: Edson Paz

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