Animais e plantas Meio Ambiente e Biodiversidade

O papel dos zoológicos na conservação

Por Ana Claudia 04/09/2020

Polêmicas envolvendo zoológicos vêm ganhando cada vez mais destaque nos últimos anos, principalmente com a adesão de ativistas que lutam contra o sofrimento dos animais. Não foi diferente com o caso da elefanta Bambi, que vive no Zoológico Fábio Barreto, em Ribeirão Preto, São Paulo.

    Bambi chegou ao Zoológico de Ribeirão Preto em 2014 após ser transferida do Zoológico de Leme. Antes ainda, viveu em um circo. A polêmica envolve a ativista Luisa Mell, que criticou em postagem no Instagram a presença de Bambi em zoológicos e exigiu a sua transferência para o Santuário de Elefantes Brasil, na Chapada dos Guimarães, Mato Grosso. Com a repercussão, o movimento Bancada Vegana promoveu um abaixo-assinado para a transferência de Bambi para este santuário, reunindo pouco mais de 230 mil assinaturas. Em 18 de agosto, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) autorizou esse procedimento de transferência.

    Mas o que poderia ser a libertação de Bambi pode também ser um sofrimento. Bambi já é idosa, possui 58 anos, é cega do olho esquerdo e tem problemas na mandíbula. Devido à idade avançada e seus problemas de saúde, necessita de constante acompanhamento de veterinários e biólogos, o que é dificultado em um ambiente de grande extensão. Além disso, o transporte, que terá duração de cerca de 17 horas, pode ser perigoso para Bambi. O estresse gerado pode desencadear problemas de saúde, como aumento da pressão arterial, alergias, alterações gástricas, entre outros. Problemas com fraturas ósseas também podem ocorrer. Portanto, no caso da Bambi, não é a melhor opção.

Este está longe de ser um texto para falar mal dos santuários, ou resolver a disputa “Zoológico X Santuário”. Os santuários, que nada mais são do que locais mantenedores de fauna, podem ser ótimos para animais silvestres, desde que atuem com responsabilidade, ética e transparência pública. E por que falo em responsabilidade, ética e transparência? Porque existem vários casos de santuários mantendo animais isolados de outros – o que causa comportamentos estereotipados, estresse, depressão, agressividade –, carnívoros sendo alimentados com dieta vegana, animais recebendo maionese, doces e outros alimentos que jamais poderiam ser oferecidos a eles, atividades que só foram descobertas após denúncias.

É fato que existem zoológicos em péssimas condições. Mas existem também aqueles que fazem um excelente trabalho para a conservação da fauna silvestre e é pelo fato destes existirem que devemos lutar para que todos os zoológicos tenham estrutura adequada e ofereçam tratamento de alta qualidade aos animais. A seguir, destaco importantes atividades realizadas em zoológicos.

Zoológicos são importantes locais de educação ambiental. Em seu trabalho intitulado “O uso do zoológico como instrumento pedagógico na educação ambiental (não) formal”, a bióloga Vanilce Pereira aponta que os zoológicos podem oferecer momentos que permitem aos visitantes trabalharem e inter-relacionarem conceitos de diversas áreas: biologia, geografia, ciências, entre outras. São espaços onde ocorre a aprendizagem, a mudança de percepção sobre o mundo e a sensibilização pelo meio ambiente. Além disso, como preservar sem conhecer? Os zoológicos permitem essa conexão entre o ser humano e outros animais dos quais jamais poderiam avistar em vida livre, seja por questões financeiras para viagens, ou porque as espécies são raras ou já extintas na natureza.

Zoológicos recebem animais que não podem retornar à natureza. Animais silvestres provenientes do tráfico, muitas vezes de criadouros comerciais legais que são desativados pelos proprietários, que vieram de circo, que são resgatados após queimadas, após atropelamentos etc. Também são locais onde aqueles que podem retornar à natureza recebem tratamento de veterinários e biólogos, são reabilitados e soltos novamente no seu habitat.

Zoológicos trabalham também com a conservação ex situ. Funcionam como centros de reprodução em cativeiro, treinamento e soltura, fazendo com que espécies nativas ameaçadas de extinção, ou até mesmo extintas na natureza, possam aumentar suas populações em vida livre e sair do status de ameaçadas.

A conservação de recursos genéticos também é realizada em zoológicos. Gametas, e até mesmo embriões, podem ser congelados a temperaturas baixíssimas – um processo chamado criopreservação – e utilizadas para fertilização futura, permitindo a repopulação de locais onde as espécies têm sua população reduzida ou extinta. Além disso, a coleta de gametas de indivíduos de uma mesma espécie provenientes de populações diferentes é benéfica para a manutenção da variabilidade genética. A variabilidade genética é importante para que formas diferentes de uma determinada característica sejam preservadas e passadas aos descendentes, as quais serão selecionadas (ou rejeitadas) pela seleção natural. Imaginem uma população onde os indivíduos possuem características semelhantes, por exemplo, não tolerar altas temperaturas. Se no futuro as mudanças climáticas chegarem a um ponto em que passou do limite de temperatura ao qual aquela população tolera, todos os indivíduos morrerão, e a população será extinta.

Zoológicos são importantes para a pesquisa científica. As pesquisas são fundamentais para a criação de recintos adequados, para o correto fornecimento de enriquecimentos ambientais, redução de estresse em cativeiro, coleta de materiais biológicos que podem auxiliar no entendimento das funções biológicas dos animais (e que muitas vezes são impossíveis de serem coletados de animais de vida livre). Eu mesma realizei meu projeto de mestrado em Zoologia com araras-canindé em zoológicos, onde verifiquei a influência dos enriquecimentos ambientais na redução do estresse, coletando dados comportamentais e excretas (fezes + urina) – uma forma não invasiva de analisar hormônios do estresse. Contarei um pouco sobre esse trabalho em um próximo artigo. Zoológicos também são ótimos locais para estudantes de medicina veterinária e de cursos da área ambiental poderem aprender e colocar em prática a teoria vista em sala de aula.

Essas são algumas das atividades realizadas pelos zoológicos que são fundamentais à conservação de animais silvestres. Muitas vezes, os zoológicos públicos encontram-se em más condições, mas não porque os profissionais que lá atuam são negligentes, e sim porque os governantes não cumprem com seu papel na preservação do meio ambiente. Portanto, precisamos pressionar os governantes para que destinem verba adequada para reformas e manutenção de recintos, para proporcionar ambientes em que os animais fiquem em menor contato com o ser humano (como a criação de recintos com vidro e colocação de insulfilm, para que os visitantes vejam os animais, mas os animais não vejam os visitantes). Pressionar para que contratem estagiários ou funcionários que ficarão responsáveis pelo guiamento de grupos pequenos, reduzindo o tumulto e, consequentemente, o estresse dos animais, além de contribuir para o aprendizado do visitante. Diga sim para a existência dos zoológicos e pela continuidade dos projetos fundamentais para a conservação da fauna silvestre!

Ana Claudia de Almeida é bacharel e licenciada em Ciências Biológicas pela UNIOESTE, mestre em Zoologia pela UFPR e doutoranda em Ecologia e Conservação pela UFMS. Atualmente, trabalha com os efeitos das alterações climáticas e de paisagem sobre a fauna, e com o turismo de observação de aves.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: