Animais e plantas Meio Ambiente e Biodiversidade

Os animais exóticos e suas ameaças ao meio ambiente

Dando continuidade ao tema “os perigos dos animais exóticos no Brasil”, neste artigo abordarei um pouco sobre a introdução de animais domésticos e silvestres no Brasil e as implicações da presença destes animais em nosso território. A introdução de animais exóticos no Brasil começou com Pedro Álvares Cabral e suas caravelas, nas quais foram trazidas galinhas para a alimentação dos tripulantes. Animais de companhia também estavam nas embarcações como gatos, para controle de ratos, e cães. Com o início da colonização, foi introduzido o gado zebu, em 1534 na Capitania de São Vicente (entre os atuais Estados do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro) e, com eles, os cães para pastoreio. Enfim, estes foram os primeiros animais exóticos e domésticos trazidos ao Brasil no período inicial de sua colonização. Mas com eles, vieram também os ratos e baratas.

No Brasil, as najas são animais exóticos.

A ratazana (Rattus novergicus), o rato-preto ou rato-de-telhado (Rattus rattus) e o camundongo (Mus musculus) se adaptaram muito bem à convivência com os seres humanos muito antes de chegarem ao Brasil. Originários da Ásia, são associados ao armazenamento de grãos e a restos de alimentos. A ratazana é o principal portador da bactéria causadora da leptospirose, enquanto o rato-preto carrega pulgas transmissoras da peste bubônica, chamada também de peste negra, que já matou milhões de pessoas no mundo todo em vários surtos desde o século XIV. Inclusive, no mês de julho deste ano, mais um surto de peste bubônica se iniciou na China e na Mongólia. Quanto às baratas, a lista de doenças transmitidas é grande; hepatite A, febre tifoide, tuberculose e pneumonia são algumas delas.

Cães e gatos domésticos possuem um impacto negativo no meio ambiente. Em 2018, a pesquisadora Katyucha Silva e colaboradores publicaram o estudo “Who let the dogs out? Occurrence, population size and daily activity of domestic dogs in an urban Atlantic Forest reserve” (Quem soltou os cachorros? Ocorrência, tamanho populacional e atividade diária de cães domésticos em uma reserva urbana da Mata Atlântica, em tradução livre), que traz notícias nada animadoras sobre a presença de cães em Unidades de Conservação. O estudo realizado no Parque Nacional da Tijuca mostrou uma estimativa de 29 cães ocorrendo dentro do parque, com atividade diurna, o que impacta animais silvestres que são ativos neste período, como as cutias. Gatos são responsáveis pela morte de diversas aves, lagartos e pequenos mamíferos. Em Fernando de Noronha, os gatos ferais são os principais causadores de danos à fauna do arquipélago, impactando negativamente a conservação de aves marinhas que dependem das ilhas para sua reprodução.

Juntos, cães e gatos ameaçam a fauna nativa por meio da predação, transmissão de doenças—como a toxoplasmose—e da competição por recursos alimentares e território. Para reduzir esses impactos, cabe às pessoas a posse responsável, a manutenção das vacinas em dia, a castração para evitar a reprodução descontrolada, e a manutenção de seus pets em casa.

Animais silvestres exóticos

Em 2006, o Ministério do Meio Ambiente publicou um informe sobre as espécies exóticas invasoras no Brasil, incluindo plantas, animais, bactérias, fungos e vírus. Ao todo, foram contabilizadas 543 espécies que afetam os ambientes terrestre, marinho e de águas continentais, os sistemas de produção (agricultura, pecuária e silvicultura) e a saúde humana. Quatro espécies de animais não nativos do Brasil estão na lista do Ministério do Meio Ambiente para controle até 2030: o coral-sol, o mexilhão-dourado, o caramujo-gigante-africano e o javali.

Duas espécies de coral-sol são encontradas no litoral brasileiro: Tubastraea tagusensis e Tubastraea coccinea. Estes animais do grupo dos cnidários, o mesmo das medusas e caravelas-do-mar, são registrados desde Santa Catarina até Sergipe. Se reproduzem muito rápido, liberando diversas larvas que irão procurar novos costões rochosos para se fixarem e lá permanecerem por um longo tempo. Além de não possuírem predadores em nossa costa, o coral-sol libera substâncias que impedem que outras espécies de corais se fixem nas rochas ao seu redor, e seus filamentos causam necrose em corais nativos, podendo causar a extinção destes.

O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) é um molusco nativo da Ásia e chegou ao Brasil por meio da água de lastro de embarcações. De água doce, este invertebrado causa danos à hidrelétricas e estações de tratamento de água e esgotos ao se incrustar nas superfícies das instalações, causando prejuízos. Como é um animal filtrador, ele compete com peixes e outras espécies nativas por microrganismos, causando a extinção local dos animais nativos no ambiente. Outro problema é o fato de acumular metais pesados por meio da filtração e, quando um peixe se alimenta do mexilhão-dourado, acaba sendo contaminado.

O caramujo-gigante-africano (Achatina fulica) foi importado para consumo em substituição ao escargot por ser mais barato. Segundo a especialista Silvana Thiengo, do Departamento de Malacologia do Instituto Oswaldo Cruz – Fiocruz, por não ser um hábito alimentar do brasileiro, não houve demanda de consumo e os animais foram soltos na natureza, no Estado do Paraná. Hoje, está presente em 23 Estados e dentro de reservas ambientais. Com populações grandes, densas, esta espécie destrói hortas e jardins, produções agrícolas, transmite doenças para o ser humano e compete por recursos alimentares com espécies nativas, causando declínio das populações dos moluscos nativos.

O javali (Sus scrofa), também conhecido como javaporco e porco-monteiro, é nativo da Europa e foi introduzido na Argentina e Uruguai no século XX. No Brasil, na década de 1960, mais especificamente no Estado do Paraná, javalis que foram transferidos de Quatro Barras para uma fazenda em Palmeira acabaram fugindo (ou talvez soltos) e começaram a se dispersar pela região. E ao final dos anos 80, o javali invadiu o Rio Grande do Sul a partir do Uruguai. Entretanto, uma normativa proibindo a criação destes animais fez com que muitos criadores praticassem a soltura intencional em resposta, o que fez com que o javali avançasse para outras áreas da região. A partir daí, a criação e soltura em diferentes Estados começou a acontecer e hoje estão presentes até na Amazônia e na Caatinga. Com ninhadas que variam de quatro a seis filhotes, mas que podem ultrapassar 10 filhotes, os javalis andam em grandes bandos, destruindo plantações, florestas, pisoteando e destruindo nascentes, espantando animais nativos e competindo por recursos com as espécies nativas queixada (Tayassu pecari, ameaçada de extinção) e cateto (Pecari tajacu).

Outras espécies exóticas causam muitos problemas no meio ambiente. A rã-touro-americana (Lithobates catesbeianus), nativa da América do Norte, atinge cerca de 20 cm de comprimento e até 1,5 Kg. Por se alimentar de espécies de anuros menores, é frequentemente reportada como causadora de declínio das populações nativas. Seu tamanho grande também permite se alimentar de filhotes de aves e até mesmo de adultos de aves pequenas; além disso, grandes quantidades de invertebrados são consumidas diariamente. Esse apetite voraz, reduz as populações de várias espécies da fauna nativa e exclui outros animais dos locais onde a rã-touro-americana ocorre por competir fortemente pelos mesmos recursos alimentares.

Espécies como a lebre-europeia (Lepus europaeus) e o cervo Axis (ou chital; Axis axis) também vem ganhando território dentro do Brasil e podem causar danos ao meio ambiente. O cervo Axis está presente no bioma Pampa, um bioma extremamente ameaçado e que abriga espécies de cervídeos nativos, os quais podem sofrer com competição e doenças provocadas pela espécie exótica.

Até mesmo os animais que são nativos do Brasil podem ser um problema quando inseridos em áreas diferentes da sua distribuição original. Por exemplo, o sagui-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus) é nativo da região Nordeste. Entretanto, com o comércio ilegal da espécie como pet e solturas imprudentes, o sagui-de-tufos-brancos foi introduzido nas regiões Sul e Sudeste do país áreas onde não é nativo—onde compete por território e alimento com macacos nativos, como o mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia), espécie ameaçada de extinção. O tucunaré (gênero Cichla), nativo da Bacia Amazônica, foi introduzido clandestinamente em outras bacias hidrográficas do Brasil para pesca, onde causou o desaparecimento de várias espécies de peixes por meio da predação.

O caso que ganhou mais destaque recentemente foi o da naja trazida ilegalmente para o Brasil pelo traficante de animais silvestres Pedro Henrique (uma naja nós Brasil: os perigos dos animais exóticos). Assim, o IBAMA e a Polícia Militar Ambiental foram acionadas para investigar o caso. Os policiais foram até a casa do rapaz para apreender o animal, mas não o encontraram. No dia seguinte, a naja foi encontrada em uma caixa atrás de um shopping em Brasília. Se a naja tivesse escapado, poderia ter causado acidentes gravíssimos com outros humanos e com animais domésticos, bem como se alimentar ou ferir animais nativos. Portanto, todo o cuidado é pouco com animais exóticos!

Ana Claudia de Almeida é bacharel e licenciada em Ciências Biológicas pela UNIOESTE, mestre em Zoologia pela UFPR e doutoranda em Ecologia e Conservação pela UFMS. Atualmente, trabalha com os efeitos das alterações climáticas e de paisagem sobre a fauna, e com o turismo de observação de aves.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: