saúde

Alterações neurológicas da COVID-19

Por Lívia Clemente Motta-Teixeira 03/08/2020

A infecção pelo  corona vírus (COVID- 19 (SARS-CoV-2))  tornou-se uma pandemia global, afetando milhões de pessoas.  No Brasil, no momento que escrevo esse texto já foram perdidas mais de 83.000 vidas, infelizmente esse número não para de crescer e lidamos com uma massiva subnotificação de casos. Além dessas perdas irreparáveis, o que acontece  no sistema nervoso dos pacientes diagnosticados com COVID-19 começa a ser desvendado e sugere que iremos enfrentar uma epidemia de larga escala de danos cerebrais ligada à pandemia.

O que sabemos até agora?

Mais de 300 estudos no mundo inteiro relatam que aproximadamente 1/3 dos infectados com COVID -19 apresentam uma ampla gama de manifestações neurológicas que variam de dores de cabeça a estados de coma (veja na Figura 1). Essas manifestações refletem alterações no sistema nervoso central e periférico e  desordens neuromusculares. É importante destacar  que complicações neurológicas foram a principal causa de morte em 4% dos pacientes de  COVID -19.

Figura 1. Sinais e sintomas neurológicos ocorrem como resultado da infecção por COVID-19

Alguns desses sintomas neurológicos se manifestam antes do quadro gripal, como por exemplo  a redução/perda do olfato (nome técnico do sintoma: hiposmia/anosmia) e do paladar (hipogeusia/ageusia) que podem ser um indicativo de infecção. Esses sintomas podem surgir mesmo em casos leves em que não há  tosse ou febre, por exemplo.

Enquanto a maioria das pessoas com doença respiratória decorrente de COVID-19 apresenta quadros de dor de cabeça, náusea e vômito, que são considerados sintomas leves,  até 50% dos pacientes  apresentam tonturas,  mialgia (dor muscular de origem nervosa), neuralgia ( dor associada a lesões de nervos periféricos), e enjoos; 20% dos pacientes desenvolveram problemas neuropsiquiátricos, como insônia, ansiedade e  psicose, sendo esse conjunto de sintomas considerados de gravidade moderada. Já as manifestações neurológicas severas ocorrem em menor porcentagem (até 5% dos casos), são relatados miopatias (doença neuromuscular), mielite (inflamação na medula espinal),  e doenças cerebrovasculares como o acidente vascular cerebral (Figura 2).

Figura 2. Manifestações Neurológicas em resposta à COVID-19

Outros sintomas graves que ocorrem em menor frequência são convulsões, distúrbios do movimento (ataxia),  meningite (inflamação das meninges, membranas que envolvem o encéfalo e a medula espinhal),  encefalite (inflamação do encéfalo), encefalomielite (inflamação do cérebro e da medula espinal), delirium (estado confusional agudo) e coma.

Importante ressaltar a encefalomielite disseminada aguda (ADEM) (inflamação do cérebro e da medula espinal), uma doença considerada rara que acomente principalmente crianças, vem sendo frequentemente relatada em pacientes com COVID-19 de faixa etária variada. Essa doença é causada por uma resposta inflamatória exagerada, assim  nossas células de defesa passam a “atacar” nosso próprio sistema nervoso – como se ele não pertencesse ao nosso organismo – causando lesões no cérebro e na medula (reação autoimune),  em especial a  bainha de mielina

 A bainha de mielina é uma espécie de “capa protetora” que funciona como um isolante elétrico e aumenta a velocidade de propagação do impulso nervoso. Ou seja, ela faz com que a informação (que no sistema nervoso é chamada de potencial de ação) possa se distribuir rapidamente entre os nossos neurônios. Quando há uma redução gradual da bainha de mielina as funções coordenadas pelo cérebro, cerebelo, tronco encefálico e medula espinhal ficam comprometidas, levando a alterações na visão, na sensibilidade do corpo, no equilíbrio, força muscular dos membros com consequentemente redução da na mobilidade ou locomoção ( quadros que caracterizam as Síndrome de Kinsbourne e de Guillain-Barré) (Figura 3).

Figura 3. Métodos de diagnóstico e curso temporal do surgimento das manifestações neurológicas causadas pela COVID-19.

Como a Covid-19 leva a essas alterações neurológicas?

A maioria dos pesquisadores acreditam que os efeitos neurológicos da COVID-19 é um resultado indireto da falta de oxigênio no cérebro (decorrente da redução da saturação de oxigênio) ou um subproduto da resposta inflamatória do corpo (a famosa “tempestade de citocinas”). Acredita-se que os efeitos neurológicos são “mediados por citocinas” (Figura 4).

Figura 4. Possíveis mecanismos de ação da COVID-19 no sistema nervoso

Além disso, aumentam as evidências que o vírus pode invadir diretamente as células nervosas. No caso da diminuição/perda de olfato, foi constatado que os vírus atacam células do epitélio nasal, o inchaço e inflamação local, impedem que os aromas cheguem aos seus receptores. Assim que a infecção é eliminada, geralmente tudo volta ao normal e o olfato retorna. Acredita-se que essa seja a porta de entrada do vírus no sistema nervoso central, normalmente a entrada de patógenos é dificultada pela barreira hematoencefálica.

Os vasos sanguíneos que irrigam o sistema nervoso central são revestidos por uma estrutura especial composta por três tipos de célula que, em conjunto, atuam como um filtro muito seletivo. Chamada de barreira hematoencefálica, essa estrutura só permite a passagem de nutrientes, hormônios e gases. Se o Covid-19 de fato for capaz de atravessar essa barreira, isso sugere que o vírus não só pode penetrar no o sistema nervoso central causando danos e lesões imediatas, mas também pode permanecer lá, com o potencial de retornar anos depois.

A misteriosa síndrome neurológica conhecida como encefalite letárgica  ou “doença do sono”,  afetou mais de um milhão de pessoas em todo o mundo e os deixou como uma estátua, sem palavras e imóvel. Pensa-se que esssa epidemia foi causada por efeitos de longo prazo do vírus influenza ( que levou a chamada “Gripe Espanhola”) ou um distúrbio auto-imune pós-infeccioso. Como o Covid-19 é um vírus novo, ainda não sabemos que danos a longo prazo teremos. É importante que os profissionais de saúde estejam cientes dos possíveis efeitos neurológicos, pois o diagnóstico precoce pode melhorar os resultados dos pacientes.

Por isso, vamos manter o distanciamento físico, quarentena e uso de máscaras. O corona vírus definitivamente não é uma gripezinha.

Referências:

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Azhideh, A. (2020). COVID-19 Neurological Manifestations. International Clinical Neuroscience Journal, 7(2), 54.

Berger J. R. (2020). COVID-19 and the nervous system. Journal of neurovirology, 26(2), 143–148.

Coolen, T., Lolli, V., Sadeghi, N., Rovai, A., Trotta, N., Taccone, F. S., … & Naeije, G. (2020). Early postmortem brain MRI findings in COVID-19 non-survivors. medRxiv.

Ellul, M., Benjamin, L., Singh, B., Lant, S., Michael, B., Kneen, R., … & Solomon, T. (2020). Neurological Associations of COVID-19. Available at SSRN 3589350

Filatov, A., Sharma, P., Hindi, F., & Espinosa, P. S. (2020). Neurological complications of coronavirus disease (COVID-19): encephalopathy. Cureus, 12(3).

Mao, L., Wang, M., Chen, S., He, Q., Chang, J., Hong, C., … & Li, Y. (2020). Neurological manifestations of hospitalized patients with COVID-19 in Wuhan, China: a retrospective case series study.

Montalvan, V., Lee, J., Bueso, T., De Toledo, J., & Rivas, K. (2020). Neurological manifestations of COVID-19 and other coronavirus infections: A systematic review. Clinical Neurology and Neurosurgery, 194, 105921.

Lívia Clemente Motta-Teixeira, bióloga pela UFJF, Mestre e Doutora em Fisiologia com ênfase em Neurociência pela Universidade de São Paulo.Doutora em Neurociência pela Universidade de Amsterdam. Professora, curiosa e divulgadora de ciência.

Edição: Edson Paz & Ewerton de Souza

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