saúde

Doença hepática gordurosa não alcoólica: por que isso deveria te preocupar?

Por Evelyn N. Goulart Pereira 28/07/2020

Ainda sem tratamento, a doença hepática gordurosa não alcoólica caracterizada pelo acúmulo de gordura no fígado, está aumentando sua ocorrência no Brasil, impulsionada por um estilo de vida moderno relacionado a má alimentação e sedentarismo.

Foto por Ingo Joseph em Pexels.com

No Brasil, hábitos alimentares inapropriados, baseados no consumo elevado de alimentos ultraprocessados com alto teor de gordura e açúcar, associados ao sedentarismo, acabam por provocar um crescente aumento de peso.  

De acordo com a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), divulgada em julho de 2019 pelo Ministério da Saúde, metade dos brasileiros está acima do peso e 20% dos adultos estão obesos. Entre 2006 e 2018 a taxa de obesidade aumentou em 67%.

As proporções epidêmicas da obesidade aumentaram o debate atual sobre sua associação com diversos problemas de saúde, tais como doenças cardiovasculares, diabetes mellitus, doença pulmonar obstrutiva, artrite e câncer. Dentre as doenças associadas ao excesso de peso e à obesidade, vem ganhando destaque a doença hepática gordurosa não alcoólica (o tipo mais comum de esteatose hepática), ou seja, o acúmulo de gordura no fígado.

A doença hepática gordurosa não alcoólica afeta cerca de 30% da população adulta e é definida como um acúmulo anormal de gordura no fígado de pacientes que não consomem álcool em excesso. A doença hepática gordurosa não alcoólica pode se apresentar em um espectro de condições patológicas que variam do fígado gorduroso simples (esteatose) à esteatohepatite não alcoólica e cirrose.

Como é uma doença quase sempre silenciosa, por muito tempo dizia-se que era uma doença benigna, que não evoluía para cirrose e que não deveria suscitar maiores preocupações na clínica, mas hoje já sabemos que não é bem assim. Nos últimos anos, a ciência mostrou que a esteatose é uma grande vilã, podendo evoluir para cirrose, carcinoma hepatocelular, e/ou transplante hepático. Dentre os fatores que contribuem para a progressão da doença hepática gordurosa não alcoólica destacam-se os distúrbios microcirculatórios no fígado, que desempenham um papel fundamental na fisiopatologia da doença, e portanto, emergem como um alvo terapêutico novo e promissor. A microcirculação é formada por uma rede de pequenos vasos sanguíneos (arteríolas, capilares e vênulas) com diâmetros inferiores a 100 µm, e tem a função vital de fornecer oxigênio e nutrientes essenciais aos tecidos, além de remover produtos do metabolismo celular.

Na doença hepática gordurosa não alcoólica ocorre redução no fluxo sanguíneo microcirculatório, que está associado ao grau de esteatose e causa aumento no dano tecidual. O fígado é um órgão dinâmico que desempenha papel crítico em muitos processos fisiológicos, que se estendem para além do fígado. Existem fortes ligações epidemiológicas entre a doença hepática gordurosa não alcoólica e o diabetes, além disso a esteatose está fortemente associada ao quadro de resistência à insulina no fígado e em tecidos periféricos, como o músculo esquelético e o tecido adiposo. Toda a produção de insulina endógena do pâncreas viaja através da vasculatura do fígado antes de entrar na circulação sistêmica, sendo o fígado o primeiro órgão aonde a insulina chega após ser secretada pelo pâncreas. A transferência de insulina através do endotélio é a etapa que limita a taxa de absorção e ação da insulina no músculo e na gordura. Além disso, o fígado secreta proteínas, metabólitos e RNA não codificante que atuam como fatores autócrinos/parácrinos e endócrinos para influenciar o metabolismo em outros tecidos.

Até o momento não existem terapias aprovadas pelo FDA (U.S. Food and Drug Administration) para o tratamento da doença hepática gordurosa não alcoólica, sendo indicada a mudança dos hábitos de vida. Para pacientes com sobrepeso ou obesos, recomenda-se perda de cerca de 10% de peso através de dieta balanceada supervisionada por profissional qualificado. É recomendado um mínimo de 150 minutos de atividade física por semana, com exercícios aeróbicos ou de resistência. Mas não se esqueça: apenas o médico pode avaliar, diagnosticar e indicar o melhor tratamento para cada caso. Cuide de sua saúde e procure sempre orientação médica.

Evelyn N. Goulart Pereira Possui bacharelado em Ciências Biológicas com habilitação em biotecnologia pelo IFRJ e mestrado em Biologia Celular e Molecular pela FIOCRUZ. É pós-graduanda em Estatística Aplicada pela UFRRJ e doutoranda na FIOCRUZ, no laboratório de Investigação Cardiovascular onde estuda alterações microcirculatórias decorrentes da Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica. Tem experiência na área de Biologia Celular, Molecular e Fisiologia, atuando principalmente nos seguintes temas: fígado, microcirculação, esteatose e glicação.

Edição e Arte: Edson Paz

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