Animais e plantas Ecologia e meio ambiente

Uma naja no Brasil? Os perigos dos animais exóticos

Por Ana Claudia 14/07/2020

Nos últimos dias repercutiu na mídia brasileira a história do estudante de medicina veterinária Pedro Henrique, que foi mordido por uma serpente naja trazida ilegalmente para o Brasil e, após alguns dias internado em estado grave num hospital do Distrito Federal, recebeu alta na última segunda-feira.

Foto por Anna Shvets em Pexels.com

As najas são serpentes exóticas, ou seja, não ocorrem naturalmente no território brasileiro, e foram trazidas acidentalmente ou intencionalmente para o Brasil.  As najas pertencem a um grupo de serpentes chamado Elapidae e ocorrem naturalmente na África e na Ásia. No Brasil, a representante mais conhecida da família Elapidae é a cobra-coral, conhecida por também ter uma toxina poderosa e potencialmente fatal aos seres humanos. As najas são conhecidas pelo ritual de encantamento realizado principalmente pelos hindus, que “adestram” as serpentes com uma flauta e praticam inúmeras manobras durante seus shows.

Mas as najas são serpentes muito perigosas: o veneno pode ter ação neurotóxica (trazendo complicações ao sistema nervoso), causar necrose e inibir a coagulação sanguínea. A naja criada pelo estudante é a versão albina da espécie Naja kaouthia, a cobra-de-monóculo, e seu veneno é neurotóxico e causa necrose. Por não serem nativas do Brasil, existe uma grande dificuldade na produção do soro antiofídico para as espécies de najas. Todas as doses do soro armazenadas no Instituto Butantan foram enviadas para o Hospital Maria Auxiliadora para tratamento do estudante, mas como não foram suficientes, a família precisou importar novas doses. Produzir soro a partir desta naja pertencente ao estudante também não é possível, pelo menos por enquanto, pois sem doses do soro disponíveis no Brasil, manusear a serpente coloca em risco a vida dos profissionais do instituto.

Além de poder causar acidentes fatais aos seres humanos, os perigos das serpentes exóticas não param por aí: elas podem causar grandes estragos nos ecossistemas brasileiros por não serem nativas do Brasil, não possuírem predadores naturais e competirem por recursos com animais locais. No Brasil, existem casos marcantes de animais e vegetais introduzidos acidentalmente ou intencionalmente, como o javali, o mexilhão-dourado e o caramujo-gigante. Esse tema de espécies exóticas em território brasileiro será abordado em outros artigos aqui no site da BIO+.

Ana Claudia de Almeida é bacharel e licenciada em Ciências Biológicas pela UNIOESTE, mestre em Zoologia pela UFPR e doutoranda em Ecologia e Conservação pela UFMS. Atualmente, trabalha com os efeitos das alterações climáticas e de paisagem sobre a fauna, e com o turismo de observação de aves.

Edição e Arte: Edson Paz

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