Animais e plantas Meio Ambiente e Biodiversidade

Mudanças climáticas causaram a maior de todas as extinções

Nosso planeta pode até parecer estático, mas não é, e por esse mesmo motivo, a vida obrigatoriamente não pode ser também. Existe uma frase marcante no romance Alice no país das maravilhas, no qual a Rainha Vermelha explica para Alice[1]:”nesse mundo é preciso correr muito para ficar no mesmo lugar”. Essa frase pode ser interpretada a partir de muitas perspectivas, e aqui vou fazer um paralelo com o mundo biológico.

A Terra não para, a vida muito menos

Aparentemente a vida no planeta está em equilíbrio e parece não evoluir (evoluir=mudar) devido tal estabilidade. Nossos sistemas sensoriais são limitados e não captam as sutilezas das mudanças. Mas, como o planeta continua mudando o tempo todo, a vida precisa correr muito e se modificar o tempo todo também. E para quê? Parafraseando o romance, para permanecer no mesmo lugar. As espécies correm o tempo todo e mudam, ou seja, evoluem continuamente.

Essa pintura do século XX causa uma ilusão de óptica dando a impressão de que a água está em movimento infinito girando a roda. Algo simples como uma pintura nos engana porque nossos sistemas sensoriais são falhos. O raciocínio subjetivo necessário para entender processos biológicos temporais, como é o caso das mudanças climáticas e do processo evolutivo não é algo trivial.

Contornando o Sol e girando sobre o próprio eixo, o planeta Terra não está parado, tampouco seus núcleos interno e externo. Obviamente, os continentes também estão movimentando-se todos, formando ciclos ao longo do tempo. E a temperatura do planeta? Também continua a mudar, formando ciclos ao longo de milhares de anos. Houve ocasiões em que o planeta esfriou e a temperatura média foi baixa, com formação de extensas geleiras polares, e outras épocas em que a temperatura média foi alta, com ausência de geleiras nos pólos e o nível do mar bem elevado. Mas no caso da temperatura, em geral, ela pode demorar de milhares a milhões de anos para mudar alguns graus Celsius. Mas e se a temperatura do planeta mudasse abruptamente? Se, por exemplo, subisse repentinamente, o que iria acontecer? Sem dúvidas iria interferir na corrida para permanecer no mesmo lugar, que foi citada no início do texto. Para entender uma situação dessas, o ideal é observar um momento em que isso já aconteceu. Existiu um período geológico em que a temperatura média do planeta subiu repentinamente, não dando tempo para que as espécies conseguissem correr para permanecer no mesmo lugar; subiu tão rápido que causou “a mãe de todas as extinções”: a extinção do Permiano-Triássico.

A mãe de todas as extinções

Por muito tempo, os cientistas não sabiam o que havia acontecido no final do período geológico conhecido como Permiano. A Biodiversidade da Terra era muito grande, tanto os continentes quanto os rios e oceanos possuíam muitas espécies de animais e vegetais. Essa riqueza da biodiversidade está muito bem registrada nos fósseis presentes nas rochas sedimentares desse período. Na passagem do período Permiano para o Triássico, os fósseis de plantas, animais e até de seres microscópicos desaparecem. Uma extinção em massa, claro! Mas porque tão violenta? E porque extinguiu tantos grupos? Geralmente alguns grupos sobrevivem mesmo nas grandes extinções. Foram poucos sobreviventes, e só sabemos disso porque seus descendentes fósseis apareceram no período seguinte, ou seja, existe uma interrupção no registro fóssil no final do Permiano. O motivo disso é que a extinção Permiano-Triássico foi tão devastadora, que mudou drasticamente a vida na Terra. Caso você queira mais detalhes, a história dessa extinção está muito bem contada no documentário da BBC “O dia em que a Terra quase morreu”[2]

Como explicar esse evento? Uma primeira proposta relacionou o evento da extinção com os trapps siberianos: uma formação geológica de origem vulcânica muito extensa, localizada na Sibéria, e que ocorreu no final do período Permiano. Esse evento incomum de vulcanismo teria mudado o clima do planeta e causado a extinção. A mudança climática causada pelos trapps siberianos foi importante, mas insuficiente para uma extinção tão grande. Uma segunda proposta relacionou a extinção com a queda de um grande meteoro (que teria de ser maior do que “aquele dos dinossauros”). Contudo, não há a evidência de que nesse período tenha ocorrido o impacto de um corpo celeste com tamanha proporção, desse modo, a hipótese do meteoro não se sustentou. Em outras palavras, nenhuma das duas propostas explicam a amplitude do extermínio, que foi de 95% das espécies marinhas e mais de 70% das espécies terrestres.

Figura representativa do provável ambiente terrestre durante o período permiano. Repare na presença marcante dos vegetais e dos animais que hoje estão filogeneticamente classificados em grupos basais.

Contudo uma análise rigorosa de fósseis num sitio paleontológico da Groenlândia lançou uma luz sobre a causa da extinção Permiano-Triássico. A partir de então, foi possível entender a ordem em que os seres foram extintos, e a conclusão é de que a extinção do Permiano não ocorreu de maneira simultânea nos continentes e oceanos.  Ela teve mais de uma fase, com um total de 80 mil anos de duração.

O que está aceito atualmente, é que no final do período Permiano, houve uma atividade muito intensa de vulcanismo. Isso lançou toneladas de CO2 na atmosfera, potencializando o efeito estufa natural do planeta e aumento de 5ºC de temperatura. O que gerou uma série de eventos climáticos, desertificando várias regiões, e causando a extinção de muitas espécies. Numa segunda fase, os oceanos foram os mais afetados e a vida marinha teve uma extinção maior e mais brusca que a terrestre. Isso já foi o suficiente para dar fim a vários grupos levando a uma perda de biodiversidade repentina e causando um desequilíbrio ecológico naquele ambiente.

Contudo, o aumento da temperatura dos oceanos desencadeou um efeito rebote; iniciou-se um processo incomum de liberação de gás metano acumulado no fundo dos oceanos o que potenciou ainda mais o processo que já estava acontecendo, ou seja, a temperatura aumentou mais 5ºC (totalizando aumento de 10ºC). Assim, os sobreviventes nos continentes viraram alvo mais uma vez, e a mudança climática, de maneira impiedosa, praticamente varreu a vida da superfície.

O que causou a maior extinção em massa da historia do planeta foi uma mudança climática intensa e a maioria dos seres vivos não conseguiu acompanhar a corrida da vida. O clima do planeta mudou como um todo, e a vida terrestre levou cerca de 10 milhões de anos para recuperar a sua biodiversidade.

E dai?

Em resumo, no final do permiano “a corrida para ficar no mesmo lugar” foi acelerada muito bruscamente, e assim a variabilidade genética e a seleção natural não conseguiram compensar. Se essa história ainda não te incomoda, saiba que nesse momento a temperatura média da Terra está aumentando, e possivelmente, numa velocidade maior do que no final do período Permiano. Será que nós todos temos pernas para correr tanto e ficar no mesmo lugar?

REFERÊNCIAS

1- Lewis Carroll CARROLL, L., Alice no País das Maravilhas, 1865

2-  The Day The Earth Nearly Diedhttp://www.bbc.co.uk

Edson Paz é professor, divulgador científico e biólogo pela UNIOESTE de Cascavel-PR. Atualmente é CSO no grupo BIO+ e membro da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciências.

Edição e Arte: Edson Paz

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