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Melatonina e melanina: uma relação histórica

Qual a relação entre a melatonina, a melanina e o vitiligo?

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Esquema simplificado dos equipamentos utilizados para a extração de melatonina

Embora não pareça, existe uma relação entre o vitiligo, doença autoimune que deixa a pele com manchas claras, e a descoberta da melatonina. As manchas claras na pele acontecem devido à morte das células chamadas melanócitos, que produzem uma substância preta conhecida como melanina. A melanina é um pigmento que deixa a pele escura, tanto de pessoas como de outros animais.

Em 1958, o médico dermatologista Aaron Lerner coordenava um grupo de estudos para entender melhor o vitiligo. Naquela época não se tinha tanta informação sobre o vitiligo, e a hipótese possível era um descontrole da produção ou da distribuição da melanina na pele. Sabia-se, no entanto, que o extrato de pineal , uma pequena estrutura presente no centro do cérebro, clareava a pele dos sapos. Então, o grupo de Aaron Lerner resolveu isolar essa substância da glândula pineal que fazia esse clareamento e estudá-la.
O grupo reuniu um saco de pineais de bois num frigorífico, e posteriormente realizaram uma técnica de extração, e estava ali uma substância extremamente potente para clareamento de pele de sapo, a melatonina.
Quando essa substância era colocada nos melanócitos, as vesículas contendo a melanina eram agrupadas no interior da célula, o que deixava a pele mais clara. Faltava dar um nome a essa substância recém isolada, e o grupo sugeriu melatonina, porque ela tem a capacidade de tonificar a melanina dentro dos melanócitos e deixar a pele do sapo mais clara.

Essa descoberta e o nome proposto para a molécula foram publicados na revista Science. No entanto, essa mesma experiência foi posta à prova na pele de mamíferos e o clareamento de pele não se repetiu. O nosso controle da intensidade da cor da pele não está relacionado com uma atividade exercida pela melatonina; nos mamíferos, o controle da intensidade do clareamento da pele está muito mais ligado a fatores genéticos e à exposição ao sol. Para se ter uma ideia da importância dessa descoberta, a utilização do clareamento da pele de anfíbios foi o método utilizado para a detecção de melatonina por muitos anos, e o surgimento dos primeiros anticorpos que são utilizados hoje para detecção da melatonina aconteceu muito tempo depois.
Com a técnica de isolamento da melatonina desenvolvida pelo grupo do Aaron Lerner, era possível estudar mais detalhadamente a molécula, e assim foram propostas novas hipóteses para a função da melatonina, entre elas o controle da reprodução, o que foi alvo de bastante discussão na comunidade científica, pois a melatonina tem efeitos opostos, dependendo da espécie estudada.
Hoje, nós sabemos que a melatonina age coma tradutora do ciclo dia e noite para todos os tecidos do organismo e a duração do pico de produção noturno marca as estações do ano. Além disso, a melatonina tem função de proteção contra radicais livres, e praticamente todos os seres vivos produzem melatonina, desde bactéria, plantas e animais. A melatonina regula nosso sistema imunológico, é utilizada também para controle dos efeitos do jet leg durante viagens longas e mudanças no fuso horário. Ela é produzida durante a fase de escuro ambiental (noite) pela glândula pineal. A presença de luz inibe a produção deste hormônio. O mecanismo envolvido nesta inibição está relacionado à ativação pela luz de vias neurais que iniciam-se na retina (nos olhos) e terminam na glândula pineal.
Por seu efeito na nossa regulação temporal do ciclo dia e noite, a melatonina é associada ao controle do nosso sono, e muita gente a conhece como “hormônio do sono”, mas essa definição é errada. Primeiro porque a fisiologia do sono não é determinada por um hormônio, e sim por um conjunto de neurotransmissores. O que a melatonina faz em nosso organismo é indicar que está escuro, e o faz para qualquer animal. Em animais noturnos, a melatonina auxilia no despertar.

Portanto, deixamos aqui uma dica: a melhor definição para a melatonina é chamá-la de hormônio do escuro.

Edson Paz é professor, divulgador científico e biólogo pela UNIOESTE de Cascavel-PR. É membro fundador da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciências.

Edição e Arte: Edson Paz

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