saúde

Vírus. O que é? Por onde anda? O que come?

Já comprovamos a existência de milhares de vírus, a maioria ainda nem se quer conseguimos nomear, e ainda estimamos que existam outros trilhões de vírus desconhecidos. Mas quem são esses seres que fazem o mundo parar?

A definição de vírus é um dos mais antigos dilemas da Biologia. A mesma ciência que estuda os seres vivos, afirma que vírus não é um ser vivo. Em termos básicos, a vida envolve célula(s) e reprodução, e o vírus não tem nada disso!

O vírus é informação (DNA ou RNA) e proteínas, empacotadas em uma camada lipídica (a famosa gordura que quebramos com água e sabão). Moléculas nada simples, mas extremamente comuns, pois também constituem os seres vivos que conhecemos. Isso mesmo, temos a mesma composição básica!

Diante disso, não é surpresa que existam vírus para infectar todo e qualquer ser vivo. Até mesmo as bactérias sofrem com infecções virais. Exatamente por isso é tão importante aprender o máximo que podemos sobre os vírus. E é aqui que nós entramos, biólogos e cientistas, nesse grande paradoxo de estudar o não-vivo que pode controlar todos os vivos.

Para entender os vírus, os dividimos em 7 grupos, cada um com seu tipo de informação genética (DNA ou RNA). O tipo de informação define exatamente como aquele vírus vai se comportar dentro de uma célula, ou mais especificamente, como aquele vírus vai fazer a célula virar uma fábrica produtora de novos vírus.

Uma boa maneira de entender essa organização é usando uma forma simplificada da conhecida classificação de Beltimore, como no esquema abaixo (Figura 1). As setas que apontam para baixo traçam o caminho da síntese de proteínas realizadas por nossas células, ou seja, nossas células estão sempre produzindo proteína a partir de um molde de RNA, que por sua vez foi feito de acordo com uma sequência de DNA contida no núcleo da célula. Então, os diferentes tipos de vírus podem aproveitar essa linha de produção para a multiplicação de novos vírus, ou seja, eles unem a maquinaria molecular de síntese de proteínas das células em conjunto com ferramentas próprias que possuem para realizar os processos biológicos, como fabricar proteínas estruturais e amplificar seu material genético, favorecendo a formação de novos vírus.

Figura 1 – Esquema simplificado da Classificação de Baltimore. O biólogo estadunidense David Baltimore propôs a divisão dos vírus em grupos de acordo com a síntese de RNA mensageiro viral, considerando então o genoma e a replicação de cada tipo de vírus.

O novo coronavírus, SARS-CoV-2, é um vírus da família Coronavírus, que pertence ao grupo 4 indicado na figura. Ao entrar em contato com a célula, os Coronavírus inserem seu RNA mensageiro que esta pronto para entrar na linha de produção da célula e formar proteínas. Nossas células não sabem se aquele RNA é próprio ou não, por isso continua o processo normalmente. Porém a informação carregada no RNA leva a síntese de uma proteína que é capaz de replicar (fazer cópias) o seu RNA (coisa que nossa célula não faz) e de outras proteínas que compõem a estrutura do novo vírus, como por exemplo, a proteína que funciona como uma “chave” de entrada em nossas células. O modelo básico de um Coronavírus entrando na célula após o reconhecimento da “fechadura” (receptor) pode ser visto na figura abaixo (Figura 2).

Figura 2 – Esquema da entrada de um Coronavírus em uma célula

E assim, através da replicação dentro de uma célula, os vírus se perpetuam e infectam outras células. Um infinito processo de replicação!

Com todo conhecimento que temos hoje a respeito desses seres microscópicos e com as desagradáveis experiências que tivemos com eles no passado, já não é surpresa que um vírus pode parar o mundo, varíola e gripe espanhola já haviam dado o recado. Agora que recebemos esse lembrete do SARS-CoV-2, não podemos mais ignorar que vivemos na imprevisível virosfera!

Por Marina R. B. Fonseca, Bióloga, mestre e doutoranda em Ciências (Microbiologia) pela Universidade de São Paulo.

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