Biotecnologia e produção saúde

Qual é a desse tal RT PCR usada para diagnosticar CoviD-19?

Você certamente já ouviu falar do teste de diagnóstico para a Covid-19, usando um tal de RT-PCR. Mas que técnica é essa, como ela funciona? Para entender como o teste é feito você precisa entender melhor o que é o vírus e como podemos utilizar os conhecimentos que já temos para o diagnóstico por RT-PCR!

O coronavírus é um pacotinho de proteínas e gorduras que guarda o material genético do vírus (composto de RNA) e também é um parasita intracelular obrigatório. Ou seja, ele precisa entrar na sua célula para parasitá-la e assim fazer várias cópias dele mesmo para poder infectar outras células! Portanto, se o vírus está no ambiente, sem nenhuma célula para parasitar, ele não irá se multiplicar, somente quando infecta uma nova pessoa (assim, é possível entender a importância do isolamento social, certo?). Resumindo, o vírus dá um jeito de transformar nossas células em uma máquina de Xerox que funciona ao seu dispor.

Por ter sido feito o sequenciamento do vírus, nós conhecemos exatamente qual é a sequência característica de “letrinhas” (nome pouco científico para bases nucleotídicas que formam o DNA ou o RNA) do vírus. Dessa forma, já que conhecemos a sequência do vírus, é possível utilizarmos isso como ferramenta na hora de detectar e diagnosticar pacientes doentes! Mas como isso pode ajudar?

Como conhecemos a sequência do genoma (ou seja, o RNA completo) do vírus, é possível produzir em laboratório pedacinhos dessa sequência para usar como molde para a realização de testes. Normalmente, quem faz isso são empresas de biotecnologia, então, é fácil de “encomendar”, em um laboratório de pesquisa, a sequência complementar que irá reconhecer uma parte do RNA do vírus, e, assim realizar testes de detecção. A técnica que utiliza esses pedacinhos para identificar a presença do vírus (ou o material genético dele dentro da célula) é chamado de Reação de Polimerase em Cadeia com Transcrição Reversa, que possui a sigla RT-PCR, como é conhecido na mídia.

Imagem PCR

O teste de RT-PCR, de forma simplificada, acontece nas seguintes etapas:

  1. Fazemos a coleta por “swab” (lê-se SUABE, em português) de saliva ou secreção nasal (que é o uso daqueles cotonetes), e realiza-se a coleta do material genético do vírus, que é composto de RNA.
  2. Transforma-se este RNA coletado do vírus em DNA complementar, também chamado de cDNA (este DNA é chamado complementar pois se liga especificamente na fita de RNA que veio do vírus).
  3. Depois, usamos o pedacinho da sequência do vírus (que falamos anteriormente), encomendado de uma empresa de biotecnologia (chamado de primer – em verde na figura), para ligar no cDNA do vírus (em vermelho na figura) e dar início ao processo de amplificação, ou seja, ele guiará uma enzima, que tem função de adicionar as letrinhas e assim produzir mais cópias do cDNA extraído do vírus, formando uma dupla fita (figura verde com vermelho).
  4. O pulo do gato desta técnica está nas etapas de ligação do primer ao cDNA (que chamamos de anelamento no laboratório), da formação da fita complementar (conhecido como amplificação) e da abertura da dupla fita (ou denaturação). Cada uma das etapas é dependente de uma temperatura específica para acontecer. Por isso a técnica é realizada em ciclos de temperaturas para haver uma coordenação da amplificação do cDNA.
  5. Sendo assim, a técnica de RT-PCR vai amplificar bastante o material genético do vírus através das variações de temperatura, que irão unir o pedacinho da sequência do vírus com a sequência de primer, gerar um pequeno pedaço híbrido de cDNA viral com o primer e, então, soltar a dupla fita, para que este processo se repita várias vezes formando novas fitas complementares (em vários ciclos de alteração de temperatura)… e, por fim, seja produzido centenas de milhares de cópias da sequência do vírus suficiente pra sensibilidade de detecção do teste.

Então, um resumo sobre como é dado o resultado do diagnóstico:

  • Quando a amostra do paciente está contaminada pelo vírus, a técnica de RT-PCR vai produzir bastante cDNA e o teste será positivo.
  • Quando a amostra do paciente não está contaminada pelo vírus, a técnica de RT-PCR não produz cDNA e o teste será negativo.

Esta explicação foi bastante simplificada, mas é uma técnica de biologia avançada e é bastante complexa, portanto é normal surgirem dúvidas, fiquem a vontade para perguntar sobre o tema nos comentários!

Por Marcela Latancia, mestre em Ciências da Saúde pelo Hospital Sírio-Libanês e doutoranda em Biotecnologia pela USP.

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