Biotecnologia e produção Saúde

Transfusão de Plasma: uma Aposta contra a Covid-19

Qual a diferença entra soro e vacina? Por que o uso de plasma de pessoas curadas para o covid-19 está sendo testado?

Ainda não sabemos o motivo pelo qual alguns pacientes com o coronavírus são assintomáticos, outros tem sintomas leves, outros pesados e para alguns pode ser fatal. O que sabemos é que com certeza os genes de cada indivíduo e o sistema imunológico deles tem participação decisiva na doença. De qualquer maneira, existe um tipo de tratamento que já é utilizado em algumas doenças que pode nos ajudar contra esse inimigo invisível e desconhecido.Você sabe como é feito o tratamento em pessoas que foram picadas por cobras, por exemplo? Quem criou este tratamento foi um médico nascido em 1865, chamado Vital Brasil (você já deve ter visto ruas com esse nome, em homenagem a ele!). Para produzir o soro, é preciso coletar o veneno da serpente (também pode ser feito com aranhas, escorpiões ou taturanas, depende do animal que causou o problema), em seguida, aplica-se o veneno bastante diluído ou seja, em uma baixa concentração, em um animal de grande porte, geralmente o cavalo, em várias doses por cerca de seis semanas. Assim o veneno esta fraco o suficiente para não causar doenças no cavalo, mas forte o suficiente para que o animal produza uma resposta imunológica ativa contra o veneno. A vacina que tomamos, tem este mesmo princípio: Nos fazer produzir ativamente uma resposta imunológica contra o causador da doença. Quando o cavalo está imune ao veneno, coleta-se um pouco de sangue e separa-se apenas o plasma, que é a parte líquida do sangue onde encontram-se os anticorpos, responsáveis por tornar o animal imune (curiosidade: devolve-se ao animal a parte que não foi utilizada, ou seja, as hemácias, plaquetas e células do sistema imunológico). Por fim, a pessoa picada recebe esse plasma purificado, chamado popularmente de soro, e assim, possui uma resposta passiva contra a doença. Chamamos de repostas passiva, justamente porque não é o indivíduo que produziu o anticorpo, mas sim o cavalo… dessa forma, caso o indivíduo seja picado novamente, ele precisará novamente tomar o soro, pois não possuirá memória imunológica (como acontece quando se toma as vacinas, e por isso chamamos de resposta ativa). Como se vê, não é novidade este tipo de tratamento, inclusive, ele já foi utilizado em outras pandemias no passado, como a gripe espanhola (em 1918) e também na China, durante o surto da Sars, em 2003, pelo H1N1 e ebola. Infelizmente, estudos da época foram inconclusivos por terem um baixo número de participantes e falta de controles adequados…No caso do coronavírus, como ainda não conseguimos produzir uma vacina ou encontrar um tratamento eficiente, a infusão de plasma de pacientes curados se mostra uma opção interessante. Mas, como ainda existem poucos pacientes curados, fica difícil aplicar este método em larga escala. Sobre a vacina, já mencionei acima, mas a principal dificuldade é a de encontrar uma região do vírus e uma concentração precisas para que o indivíduo não desenvolva a doença, mas que consiga ativar o sistema imunológico o suficiente para gerar os anticorpos. A questão é que devido à urgência e necessidade de se combater a Covid-19, a infusão de plasma está disponível e por isso vários hospitais tem buscado pacientes curados para realizar os testes!Os hospitais que estão aceitando doadores de plasma, para que seja feito o estudo e descobrirmos se este tipo de terapia funciona, são: Hospital Israelita Albert Einstein, Sírio-Libanês e o Hospital das Clínicas (USP)*. Os doadores precisam preencher os seguintes requisitos:

  • Devem ser homens;
  • No caso de mulheres, não podem ter engravidado;
  • Devem ter idade entra 18 e 60 anos;
  • Peso corporal superior a 55 kg;
  • Devem ter sido testado positivos por RT-PCR para o novo coronavírus;
  • Devem estar bem de saúde há, no mínimo, 14 dias;
  • Devem ter apresentado quadro leve de covid-19, ou ter-se mantido assintomático;
  • Não podem ter contraído hepatite, doença de Chagas ou HIV durante a vida.

Alguns hospitais no exterior também estão apostando nesse tipo de tratamento, porém ainda é muito cedo para saber se a terapia é eficaz. O importante é que seja feito os testes de forma adequada, onde os controles estejam corretos, o número de pacientes seja adequado para termos uma resposta significativa (ou não), e assim, com os estudos dentro da metodologia científica, poderemos aplicar em alta escala este tipo de terapia, até que haja uma vacina ou tratamento que realmente funcionem.

*É possível que em um futuro breve outros hospitais pelo Brasil também entrem nesse projeto e aceitem doadores de plasma.

Por Marcela Latancia, mestre em Ciências da Saúde pelo Hospital Sírio-Libanês e doutoranda em Biotecnologia pela USP.

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