Nota do Editor

Pandemia: Cada um no seu quadrado – o colapso na informação

Arte: Ewerton Souza

#artigodeopiniao

As últimas semanas tem sido um caos, não um caos nas cidades ou nos hospitais…Um caos digital!

Você com certeza recebeu uma mensagem dizendo que o novo Coronavírus morre em temperatura de 26ºC ou que a cloroquina (remédio para tratar malária e outras doenças) cura a doença causada pelo vírus, e uma série de outras mensagens referentes a pandemia que estamos presenciando. Pois é, é muita informação!

No cenário atual somos bombardeados por informações que enchem nosso Feed de notícias nas redes sociais sobre o assunto que mais se fala no momento, e os algorítimos contribuem com isso! Mas o problema não é esse, e sim o fato de compartilhar qualquer conteúdo, de qualquer pessoa!

Parece que as pessoas perderam o discernimento – ou nunca o tiveram – de se limitar ao seu conhecimento e seu grau de instrução. Me refiro ao ato de se auto avaliar e admitir que determinado assunto não é de sua competência e que cabe analisar e consultar a informação antes de espalhar. Vale ressaltar, que aqui me refiro ao conhecimento cientifico daquilo que nos ajuda a entender minimamente a questão.

Para melhor interpretar, chamarei esse grau de instrução de “quadrado”, onde cada um tem o seu e de tamanhos diferentes, sendo diretamente proporcional a sua instrução profissional, que lhe dá legitimidade para falar. Parece pedante mas não, é fundamental.

A tão famosa expressão “cada um no seu quadrado” nunca me soou tão bem quanto agora. Estamos passando por uma pandemia de informações infundadas. Todos falam com o mesmo tom, se julgam especialistas. De repente, todos viraram biólogos, médicos, profissionais da saúde! Podemos enfatizar a analogia da seguinte forma, é bem simples de entender: Quem se limita ao seu quadrado ajuda e quem ultrapassa, atrapalha.

Infelizmente muitas pessoas caem nas armadilhas do conteúdo incerto. E acabam compartilhando e gerando consequências.

Existem algumas possibilidades para explicar o porque é tão fácil disseminar sem conhecer. A mente humana é tão frágil quanto o sistema de saúde em um surto de coronavírus, somos facilmente ludibriados por falácias que tocam a mais profunda VONTADE DE AJUDAR, de mostrar o quanto estamos fazendo o bem passando uma mensagem de maneira rápida, e tudo isso, sem ao menos consultar a fonte e a veracidade do fato.

Outra possível explicação está na FACILIDADE que temos em apertar o botão compartilhar e em seguida ver a reação das pessoas (é o prazer da recompensa!). Afinal, da muito trabalho pesquisar, estudar, ir atrás do fato.

A vontade de ajudar e a facilidade trabalham juntos, uma vez que o conteúdo que nos move e nos faz acreditar e querer compartilhar, comumente vem munido de estratégias subconscientes, que pescam a fragilidade humana. Os conteúdos tem cunho afirmativo e persuasivo, onde mostram a verdade absoluta, o inquestionável, cujo olho-no-olho e as palavras firmes nos fazem acreditar. Mas pode ser também algo emotivo e colaborativo, que nos da a impressão de bondade e desperta nossa natureza solidária. A consequência disso é compartilhar sem pensar, sem questionar.

Outra razão de cairmos em falácias é “NÃO ENTENDER GEOMETRIA”. Isso mesmo, de não saber calcular a área do quadrado. Esse é o grande problema, na minha opinião, o maior deles. Ao receber uma informação, seria muito mais coerente questionar-se, avaliar se a informação é verdadeira antes de compartilhar. De onde ela vem? quem esta falando? Ela trará consequências caso seja veiculada? é o poder de discernir, de saber se aquilo compete ao tamanho do quadrado de quem o fez.

No jogo dos quadrados a regra é simples, se o seu quadrado é pequeno, a melhor coisa é buscar ajuda. O ser humano sistematizou as áreas do conhecimento, e não é difícil e nem exige muito esforço buscar informação séria com os profissionais certos, ou seja, uma pessoa com um quadrado maior. E acredite, eles estão ansiosos pra falar e informar, principalmente quando o assunto é quente!

Na atual situação de pandemia do novo Coronavírus, já esgotamos estoques de álcool em gel, de luvas e máscaras, e pior, de medicamentos necessários para tratar doenças graves, como é o caso da cloroquina, deixando pessoas que mais precisam à deriva. Coloque a mão na consciência, se questione, não é vergonha perguntar a quem sabe. Use sua capacidade para calcular o tamanho do seu quadrado e do quadrado dos outros, se auto avalie, talvez seu quadrado do discernimento seja maior e você precise usa-lo.

Por Ewerton Souza – Biólogo, cientista, fundador do grupo BIO+ ciência e membro da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência.

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