Animais e plantas Meio Ambiente e Biodiversidade

Perturbações ambientais e a saúde dos anfíbios

Não é novidade que muitas das nossas matas sofrem com diversos tipos de perturbações causadas pelo homem, seja ela poluição atmosférica, dos corpos d’água ou mesmo o próprio desmatamento. Cada uma dessas perturbações pode afetar populações da fauna e flora de diferentes formas a depender da sua natureza, levando ao desequilíbrio do ecossistema. Tal interferência negativa, apesar de parecer muito distante de nossa realidade, pode gerar uma cadeia de pequenas reações, culminando em problemas que interferem diretamente na vida humana, como o surgimento de “pragas” em plantações, desaparecimento de espécies de valor comercial e até mesmo surtos de algumas doenças.

Dentre os organismos afetados pelas perturbações, os anfíbios, como sapos, rãs e pererecas, têm se mostrado um grupo severamente ameaçado, com elevada taxa de extinção nas últimas décadas, sendo que muitas de suas espécies são consideradas sensíveis a alterações ambientais. Esses animais possuem uma ampla diversidade com diferentes estilos de vida, muitos possuindo restrições ambientais a determinadas condições, como a proximidade a corpos d’água para reprodução. Devido a essas restrições, qualquer alteração em seu habitat pode provocar instabilidade sobre as populações, como por exemplo pelo aumento da mortalidade. Uma das prováveis causas dessa mortalidade é a suscetibilidade que esses animais têm a doenças. Quando não levando à morte em curto espaço de tempo, essas doenças podem torná-los incapacitados de se reproduzir ou de fugir de predadores.

Muitas  doenças que acometem as populações de anfíbios podem ser detectadas a partir de técnicas que avaliam o funcionamento do sistema imunológico desses animais. Alguns trabalhos mostram que é possível detectar o estresse ambiental que esses animais sofrem por meio de mudanças na proporção de células específicas do sistema imunológico, sendo elas os neutrófilos e os linfócitos. Neutrófilos são células de defesa características da resposta inflamatória, fagocitando (comendo) corpos estranhos no organismo, enquanto os linfócitos, estão associados com uma resposta mais tardia e específica. Quando ocorre um aumento na proporção de neutrófilos em relação aos linfócitos na corrente sanguínea, isso pode significar que o animal está sob algum tipo de estresse. Portanto, podemos supor que anfíbios em ambientes perturbados podem apresentar alterações no sistema imunológico.

Desenvolvemos um estudo em áreas de mata e em áreas mais perturbadas no estado do Maranhão, usando duas espécies como modelo: a perereca (Scinax x-signatus) e rã cachorro (Physalaemus cuvieri.) Capturamos alguns animais nos dois tipos de ambiente com o objetivo de verificar o efeito do estresse ambiental sobre o sistema imunológico dessas espécies. Constatamos um aumento na proporção de neutrófilos em relação aos linfócitos em indivíduos espécie de perereca capturados em áreas perturbadas, enquanto indivíduos de rã cachorro não apresentaram alterações em ambos os tipos de ambientes. 

Biólogo Patrício Garcia – Área de mata no bairro do Quebra Pote em São Luís-MA. Uma das áreas de coleta do trabalho realizado”

Uma das razões pelas quais os espécimes de rã cachorro não mostraram alterações entre os tipos de ambientes pode ser justificada por uma maior tolerância dessa espécie às perturbações ambientais por se tratar de uma espécie que é encontrada em uma maior variedade de habitats. Essa versatilidade confere a esses indivíduos uma resistência maior ao estresse causado pelas perturbações ambientais. Enquanto que a perereca, por ser uma espécie mais restrita a habitats poucos perturbados, mostrou-se mais suscetível nos ambientes mais degradados. Observamos assim que diferentes espécies podem reagir de diferentes formas ao mesmo estresse ambiental, sendo algumas mais tolerantes do que outras.

A partir dos resultados encontrados, pudemos constatar uma das diferentes formas pelas quais os anfíbios podem reagir a algum tipo de estresse ambiental. Cada espécie com sua particularidade, umas sendo mais sensíveis do que outras. Tendo em vista a grande diversidade de anfíbios, muitas delas podem apresentar um padrão semelhante ao encontrado nas pererecas. Devido a isso temos que buscar a minimização das perturbações causadas pelo homem, para evitar a perda da diversidade desse grupo. Não apenas anfíbios, mas muitas outras espécies de animais podem ser investigadas usando essa abordagem, tornando-se importante a realização de mais estudos a fim de aumentar o conhecimento acerca de como diferentes animais respondem às mudanças que ocorrem em seus ambientes.

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Por:Patrício Getúlio Garcia Neto – biólogo graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Maranhão e pela University of California, Davis. Iniciou o mestrado em Fisiologia Geral no Insituto de Biociências da Universidade de São Paulo em 2018. Atualmente faz parte do Laboratório de Neuroimunoendocrinologia realizando pesquisa acerca de alterações em parâmetros imunofisiológicos de anfíbios anuros após desafio inflamatório.

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