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Câncer – o maior desafio contemporâneo

"Estamos falando do maior desafio para a medicina, ciência e possivelmente para a humanidade no momento atual em que vivemos"

No decorrer do tempo enfrentamos muitos desafios. Tínhamos de procurar comida para sobreviver e por isso éramos nômades, porém, por meio da agricultura passamos a cultivar nosso próprio alimento. Já fomos assolados por grandes epidemias como peste negra, varíola e febre tifoide, mas inventamos vacinas e erradicamos quase completamente estas doenças. Não se morre mais de AIDS como antes e nem guerra o ser humano faz com tanta frequência e intensidade como se fazia no passado. Evoluímos muito, contudo, ainda enfrentamos um inimigo que, por milhares de anos nos acompanha, e ainda é uma grande interrogação, o câncer.

Apenas no Brasil, o INCA (Instituto Nacional do Câncer), estimou  600 mil novos casos entre 2018-2019. No mundo, dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) mostram que a incidência acima de 18 milhões de casos tende a aumentar em torno de 63% até 2040. Para você ter uma ideia, em São Paulo o câncer é a segunda principal causa de mortalidade na população geral do estado, segundo a FOSP (Fundação Oncocentro de SP, 2008).

Do ponto de vista econômico, segundo o Relatório global de tendências em Oncologia (Global Oncology Trends Report)de 2018, os gastos com medicamentos para câncer continuam a crescer, chegando a 133 bilhões de dólares globalmente em 2017, um aumento de $93 bilhões desde 2013, e com estimativa de chegar a marca de $200 bilhões até 2022. Nos Estados Unidos, os custos com saúde para um paciente com câncer é, em média, $16.436,00, equivalente a 4x mais que um paciente sem câncer. Aqui no Brasil, esta patologia custa para  o SUS 6 bilhões por ano, no mínimo.

ESTAMOS FALANDO DO MAIOR DESAFIO PARA A MEDICINA, CIÊNCIA E POSSIVELMENTE PARA A HUMANIDADE NO MOMENTO ATUAL EM QUE VIVEMOS…

Diferentemente das doenças contagiosas (causadas por microorganismos como bactérias, vírus e fungos), como a febre tifóide, peste negra, varíola e AIDS, não podemos aplicar a mesma linha de pensamento de causalidade para o câncer. Uma simples pergunta nos ajuda a compreender: Todos nós sabemos da ligação do cigarro com câncer, mas todo mundo que fuma vai ter câncer? 

Para se ter uma ideia da magnitude desse problema, existem instituições e organizações voltadas especificamente para compreensão do tema. Em um nível global, a IARC, que é um braço da Organização Mundial da Saúde (OMS), tem como propósito apenas o estudo do câncer. Desde 1972 eles vem publicando trabalhos científicos sobre fatores de risco, medidas de prevenção e proteção da doença.

Os fatores de risco para o desenvolvimento do câncer podem ser classificados em: agentes físicos (radiação por exemplo), agentes químicos (pesticidas por exemplo) e agentes biológicos (como a bactéria H. pylori por exemplo). Para serem classificados como um agente potencialmente cancerígeno, uma série de estudos e evidências precisam existir na literatura, desde estudos controlados em células, até estudos em animais, passando por estudos não controlados e observacionais em humanos, como por exemplo, um aumento da incidência de câncer em pessoas que trabalham com pesticidas. Um fator de risco que entrou recentemente para lista, é o consumo de carne vermelha e embutidos, informações como esta devem ser interpretadas com cautela, pois refletem na economia de cidades, estados e nações.

Todos nós concordamos que a afirmação “comer carne causa câncer” é falsa, uma vez que deixar de comer carne não te deixará “imune” a esta doença, então qual seria a melhor forma de interpretar esses dados? Temos que pensar em probabilidade. Por exemplo, se você tem um estilo de vida sedentário, é obeso, come embutidos e fuma, sua probabilidade de desenvolver câncer é igual a P1. Agora, se você possui níveis de gordura corporal normal, ingere 5 porções diárias de grãos, legumes, frutas, verduras, oleaginosas e faz atividade física, a sua probabilidade de desenvolver câncer é igual a P2, sendo que existe uma tendência de P1 ser maior que P2. Veja bem, estamos falando sobre probabilidades, e outras inúmeras variáveis que existem e compõem uma rede interativa e dinâmica. Essa forma de pensar, é a tendência científica atual e os pesquisadores que não se atualizarem podem estar tirando conclusões equivocadas e deixando de realizar boas perguntas sobre o fenômeno estudado. Para melhor compreensão da linha de raciocínio, a minha sugestão de leitura sobre o tema é “Biologia de Sistemas”. 

Os fatores de proteção são medidas e/ou escolhas que possuem potencial de prevenir o câncer. Como exemplos estão a prática de exercícios físicos regularmente e o consumo de vegetais crus com maior frequência. A prática de exercícios físicos induz a liberação de moléculas no corpo, dentre elas as miocinas (moléculas provenientes dos músculos), que tem potencial de inibir o surgimento e o crescimento de tumores. Os vegetais crus, são alimentos que possuem moléculas chamadas isotiocianatos e indóis que, em experimentos controlados, apresentaram potencial de inibir a indução e o crescimento do câncer. Esses são apenas dois exemplos de medidas de proteção que contribuem para a prevenção do câncer.

O engajamento da sociedade diante do câncer é grande, nos deparamos frequentemente com campanhas preventivas do estilo “Novembro Azul” ou “Outubro Rosa”. A mamografia, por exemplo, é considerada uma prevenção secundária, porque ela não impede a pessoa de desenvolver o tumor, muito pelo contrário, esse exame procura padrões da doença já instalada. No entanto, ela pode fazer a detecção precoce e aumentar a chance de resposta ao tratamento, por isso é considerada uma prevenção secundária. Já as medidas de prevenção primárias são as mais importantes do ponto de vista de saúde pública, pois elas possuem o potencial de impedir que o câncer se desenvolva. O melhor de tudo é que você, isso mesmo, você que está lendo esse texto pode ser um multiplicador dessas informações e fazer a diferença na vida das pessoas! Fazer prevenção primária estimulando os fatores de proteção e diminuindo os fatores de risco, retirando estímulos que podem influenciar no desenvolvimento do câncer e colocando estímulos que podem inibir o desenvolvimento da doença.  

Em um aspecto mais amplo, uma boa ferramenta a nosso favor para a aplicação destas medidas de prevenção é o nosso sistema Único de Saúde, o SUS. O SUS permite que a informação e o incentivo da prevenção se estenda em nível nacional. Estas medidas também envolvem política, como exemplo prático é a Lei Antifumo em vigor no estado de SP, que de certa forma, reduz a exposição da fumaça do cigarro, que é comprovadamente nociva, em não fumantes. Seguindo esse exemplo podemos estimular a criação de políticas públicas que favoreçam a prevenção primária.

Por Guilherme A. Rossini, Médico, Pesquisador, realizou intercâmbio e estágio científico no Laboratório de Cirurgia Robótica do Children's Hospital Boston vinculado a Harvard Medical School, hoje é aluno de Doutorado no Instituto Butantan, Faculdade de Medicina da USP onde estuda Metabolismo dos Tumores. 
Contato: e-mail: dr.guilherme@usp.br 

Referências:

  1.  FOSP, Fundação Oncologia Estado de São Paulo, 2018 disponível em http://www.fosp.saude.sp.gov.br:443/epidemiologia/docs/Mortalidade97-2008.pdf 
  2. INCA, Instituto Nacional do Câncer, 2018 disponível em http://www1.inca.gov.br/estimativa/2018/introducao.asp 
  3. WHO, World Health Organization, 2019 disponível em http://gco.iarc.fr/tomorrow/graphic-line?type=0&population=900&mode=population&sex=0&cancer=39&age_group=value&apc_male=0&apc_female=0 
  4. Park, J. et. all., Health care expenditure burden of cancer care in the United States. Inquiry. 2019
  5. Global Oncology Trends, 2018. https://www.iqvia.com/insights/the-iqvia-institute/reports/global-oncology-trends-2018
  6. IARC publications for cancer prevention. http://publications.iarc.fr/Book-And-Report-Series/Iarc-Handbooks-Of-Cancer-Prevention 
  7. IARC Monographs of Carcinogenic Hazards to Humans. http://publications.iarc.fr/Book-And-Report-Series/Iarc-Monographs-On-The-Identification-Of-Carcinogenic-Hazards-To-Humans
  8. Systems Biology by National Institute of Health. https://irp.nih.gov/catalyst/v19i6/systems-biology-as-defined-by-nih

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