Nota do Editor saúde

Pesquisa revela de onde vem as “Fake News” sobre vacinas

Estudo mostra que conteúdo Antivacinas tem origem principalmente nos Estados Unidos.
Por Ewerton Souza

Estamos na era digital, onde a informação corre muito rápido e alcança milhões de pessoas em pouquíssimo tempo. Isso com certeza nos trás muitos avanços, mas como já sabemos, essa facilidade de obter informação permitiu também o surgimento de oportunistas, ou melhor de charlatões, prometendo curas milagrosas, remédios alternativos, e alimentando grandes movimentos como da Terra plana e outros muito graves como o movimento antivacinas.

Uma nova pesquisa realizada pela Avaaz em conjunto com a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e o IBOPE, trazem dados alarmantes para sociedade brasileira. A pesquisa revelou que apenas 54% das 2 mil pessoas entrevistadas consideram as vacinas totalmente seguras, e 45% sentem alguma insegurança em relação a elas. Ai paramos para pensar, porque tanta insegurança? o que leva as pessoas a não acreditarem que as vacinas são seguras? A resposta está na desinformação!

Segundo a pesquisa, mais de 20 milhões de pessoas, que equivale a 13% da população, não vacinaram seus filhos e os motivos mais citados, que apontam para a desinformação (Segundo a SBIm e a Organização Mundial da Saúde – OMS) foram: não achei a vacina necessária (31%); medo de ter efeitos colaterais graves após tomar uma vacina (24%); medo de contrair a doença que estava tentando prevenir com a vacina (18%); por causa das notícias, histórias ou alertas que li online (9%).

Ao questionar os participantes da pesquisa alguns mitos sobre vacinação, quase 7 em cada 10 entrevistados (67%) acreditam em uma notícia falsa sobre vacinas, por exemplo, que há tratamentos alternativos tão ou mais eficientes que as vacinas tradicionais. E 48% de todos os entrevistados afirmam ter as redes sociais e o Whatsapp como fonte de informação sobre vacinas, ficando atrás apenas das mídias tradicionais (Rádio, TV) com 68%. Fontes meramente confiáveis como Ministérios da saúde e os próprios médicos aparecem em quarto e quinto lugar da lista.

E as novidades não param por ai! Além da pesquisa de percepção feita com os brasileiros, o estudo apontou quais são e de onde vem as principais notícias falsas sobre vacinas. E é claro que vamos contar aqui!

Para começar dar nome aos bois, a Avaaz selecionou 30 notícias que foram desmistificadas. Oito pelo ministério da saúde (Saúde Sem Fake) e vinte e duas pelos sites do médico Drauzio Varella, Lupa, Aos Fatos, Fato ou Fake (G1), Boatos.org, E-farsas e Uol Confere – que inclui todas as notícias verificadas sobre o assunto nessas páginas.

Essas 30 notícias falsas foram veiculadas por diferentes plataformas, atingindo (do que foi possível mensurar) 2,4 milhões de visualizações no Youtube, 23,5 milhões de visualizações e 580 mil compartilhamentos no Facebook (vídeos). As notícias também foram veiculadas por whatsapp porém a política da plataforma não permite mensurar o alcance.

A pesquisa também mostrou a origem destas notícias. Quase metade delas foram traduzidas literalmente ou com base em informações originalmente publicadas no exterior, em inglês, nos Estados Unidos. O site “Natural News” ganhou destaque, representando 69% do conteúdo não brasileiro da amostra.

Interessantemente as páginas que compartilham conteúdo antivacina possuem certos pontos em comum, são eles:

  • Páginas que pregam a existência de um plano para criar uma “nova ordem mundial”. De acordo com essa teoria, existe um conluio secreto para dominar e controlar a sociedade, e a vacinação é parte da trama.
  • Páginas sobre “estilo de vida saudável”, “estilo de vida natural” e “medicina alternativa” vendem produtos lado a lado a artigos sobre os efeitos malignos das vacinas.
  • Grupos onde pessoas compartilham testemunhos de más experiências com vacinas, defendem que o corpo deve encontrar seu próprio caminho para o aumento da imunidade e que as pessoas devem ter liberdade para escolher entre ser vacinadas ou não – esses parecem ter um alcance menor.

Focando no Facebook, na amostra obtida no estudo, as páginas que mais geraram engajamento com conteúdo antivacinação desde 2016 foram:

  • 1) Cruzada Pela Liberdade – 162 mil interações / 350 mil seguidores
  • 2) O Lado Obscuro das Vacinas – 64 mil interações / 13 mil membros / mais de 1.970 posts;
  • 3) Contra Nova Ordem Mundial – 54 mil interações / 22 mil seguidores;
  • 4) Conspiração Global – 53 mil interações / 719 mil seguidores;
  • 5) Notícias Naturais – 16 mil interações / 119 mil seguidores;
  • 6) Verdade Mundial – 11 mil interações / 182 mil seguidores.

No youtube, os vídeos antivacinação mais comuns segundo o estudo, são de autoria de Janie Bruning, com vídeos que atingiram mais de 1 milhão de visualizações. Outro canal antivacinação de destaque no YouTube é o Ciência de Verdade. O canal possui 20 vídeos antivacinação com mais de 10.000 visualizações cada. No total, eles somam 1,3 milhão de visualizações e 14.000 comentários. O Ciência de Verdade também possui uma série de vídeos alegando que a Terra é plana. Outros YouTubers com vídeos antivacinação notáveis são Romulus Maraschin e Evangelistas do Apocalipse (recentemente removido pelo YouTube).

Os movimentos antivacina, não podem ser negligenciados, por isso o estudo trouxe junto recomendações tanto para divulgadores, quanto ao poder publico. Copiamos aqui o proposto:

PARA PLATAFORMAS DE MÍDIA SOCIAL:

Correct the Record

Isso significa que as plataformas de mídias sociais devem trabalhar com especialistas, com a comunidade científica e com verificadores independentes para emitir imediatamente correções a todos os usuários que viram ou interagiram com desinformação, incluindo conteúdos falsos antivacina, além de informar os seguidores sobre as páginas que foram retiradas do ar ou rebaixadas nos algoritmos das plataformas por participar de campanhas de desinformação antivacina.

Desintoxicar o algoritmo

Sem o devido cuidado e supervisão, os algoritmos usados pelas plataformas para exibir e promover conteúdo podem aumentar o en
volvimento do usuário com desinformação e outros conteúdos prejudiciais. As plataformas de grandes redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas precisam ser proativas na adaptação dos algoritmos para garantir que elas próprias não estejam acelerando a expansão da desinformação.

Transparência

É essencial que todas as esferas governamentais, a sociedade civil e o público em geral sejam informados sobre a natureza e a escala da ameaça da desinformação antivacina, e sobre as medidas que as plataformas de mídia social adotam para coibir a propagação deste tipo de conteúdo. Plataformas de redes sociais com alcance relevante devem fornecer relatórios periódicos, auditados por auditores independentes, listando as desinformações encontradas nos serviços por elas oferecidos e detalhando seus esforços para lidar com isso.

Repressão a táticas enganosas

Plataformas de redes sociais devem, garantindo princípios constitucionais e direitos fundamentais, adotar uma política rigorosa e transparente para alteração de nome de páginas nas plataformas, de modo a garantir que indivíduos mal-intencionados não criem páginas com temas populares e, depois de alcançar muitos seguidores, mudem o nome delas. Além disso, as plataformas de mídia social devem ser cautelosas com o compartilhamento coordenado de conteúdo de desinformação por “veículos alternativos”. Outras táticas enganosas incluem o uso de contas falsas e a propagação inautêntica, quando indivíduos mal-intencionados criam páginas diferentes para impulsionar o conteúdo de desinformação um do outro, jogando com os algoritmos da plataforma. É importante lembrar que o uso de robôs para espalhar desinformação também pode aumentar o problema se não for tratado adequadamente.

PARA AS AUTORIDADES BRASILEIRAS:

1. AO MINISTÉRIO DA SAÚDE E AO GOVERNO FEDERAL:

a. Rever as estratégias de comunicação, buscando canais capazes de ampliar a disseminação das informações de forma mais efetiva. Para combater a desinformação sobre vacinas e os posicionamentos antivacinação, precisamos de mais informações disponíveis ao público. É altamente recomendável que governo federal em 2020 inclua um plano audaz para cobrir todas as brechas de falta de informações que estão sendo preenchidas por fake news.

b. Incrementar esforços de comunicação para grupos mais vulneráveis à desinformação. A combinação da falta de informação e da enxurrada de rumores online, torna comunidades inteiras vulneráveis. Sugerimos enfaticamente que o Ministério da Saúde busque encontrar formas de comunicação que atinjam especialmente a população identificada por este relatório (jovens, homens, pessoas pertencentes à classe média, pessoas com escolaridade intermediária – entre o sexto ano do Ensino Fundamental e o Ensino Médio – e residentes de fora da região Sudeste) – mais influenciadas pela desinformação e que menos aderem à vacinação.

c. Desenvolver campanhas focadas em redes sociais. Também incentivamos o governo a canalizar recursos para o desenvolvimento de campanhas educacionais focadas nas redes sociais, atacando os conteúdos com desinformação mais populares identificados por este estudo.

d. Mais, melhor e mais rápida verificação de fatos. Reconhecemos os esforços do Ministério da Saúde para verificar desinformações antivacinas e o incentivamos a melhorar esse serviço fundamental, procurando ativamente por desinformação antivacina e trabalhando com a comunidade científica para corrigir as mentiras. ]

2.PARA O CONGRESSO NACIONAL:

a. Introduzir emendas ao orçamento de 2020 do Governo Federal que garantam recursos para esforços de comunicação e outras estratégias para ampliar a adesão da população à vacinação.

b. Introduzir legislação que garanta que usuários de redes sociais recebam correções da desinformação antivacinação a que foram expostos, que mitigue a disseminação de conteúdos verificados como desinformação ao mesmo tempo em que proteja a liberdade de expressão e não criminalize o usuário comum que involuntariamente dissemina um conteúdo falso ou desinformativo ou que foi induzido ao erro.

Por fim, este ano a OMS anunciou o movimento antivacina como um risco a saúde global, E não é difícil sentir os efeitos devastadores deste movimento. O aumento de 300% nos casos de Sarampo no mundo em relação ao ano passado já é consequência disso. E claro, cabe a nós fazermos a nossa parte! Buscar informações com profissionais e em canais confiáveis é essencial, não vamos correr na contramão dos avanços científicos e tecnológicos que nos trazem benefícios. Suspeite de qualquer cura milagrosa, terapia alternativa, e demais teorias da conspiração.

%d blogueiros gostam disto: