Biotecnologia e produção saúde

Terapia celular: Células de defesa são reprogramadas para atacar câncer do próprio paciente

Tratamento realizado pela primeira vez no Brasil tem resultados promissores.

Por Ewerton Souza

No mês de outubro, uma ótima notícia se espalhou nos diferentes meios de comunicação, onde mais uma vez, a ciência ganha visibilidade por seus bons resultados e por sua contribuição: Um novo tratamento contra o câncer.

A imagem abaixo mostra a regressão de um tipo específico de câncer, o linfoma difuso de grandes células B – o tipo mais comum de linfoma não Hodgkin, doença que afeta as células do sistema linfático (importante sistema de defesa do organismo). Nos exames de imagem mostrados abaixo é possível observar claramente que as manchas pretas (tumores) desapareceram quase completamente após o tratamento.

O tratamento realizado é diferente dos tratamentos comumente utilizados contra o câncer, como quimioterapia e radioterapia. O paciente já havia sido submetido a diferentes tipos de quimioterapias mas, apesar da necessidade deste tratamento neste e em outros tipos de câncer, não houve progresso.

A terapia celular utilizada, conhecida como Terapia de células CAR-T, segundo a Revista agência FAPESP, foi inicialmente desenvolvida nos Estados Unidos, onde é oferecida por dois laboratórios farmacêuticos a um custo de 400 mil dólares – sem considerar os gastos com internação. Já a metodologia desenvolvida no Centro de Terapia Celular da Universidade de São Paulo (CTC) tem custo aproximado de 150 mil reais, e pode se tornar ainda mais baixo se o tratamento passar a ser oferecido em larga escala.

O nome CAR-T cells, sigla em inglês traduzida como “receptores quiméricos de células T”, refere-se ao uso de células T, um tipo celular que atua na defesa do organismo contra infecções. Estas células são então reprogramadas, ou seja, recebem um gene que codifica para um receptor quimérico que reconhecerá as células cancerígenas. O termo quimérico vem da mitologia, onde representa uma mistura de diferentes seres em um só corpo. Na biologia e na medicina, quimera pode ser um indivíduo com dois tipos distintos de DNA em seu corpo, um animal que experimentalmente recebeu células de outro animal ou, no caso da referida terapia, células modificadas com sequencias de DNA não próprias que levarão a produção de um receptor.

Como funciona o tratamento

A partir de amostras de sangue dos pacientes a serem tratados, os pesquisadores isolam um tipo de célula conhecido como linfócito T, um dos principais responsáveis pela defesa do organismo graças à sua capacidade de reconhecer antígenos existentes na superfície celular de patógenos ou de tumores e desencadear a produção de anticorpos.

Os linfócitos T reprogramados são “expandidos” em laboratório (colocados em meio de cultura para que se proliferem) e depois infundidos no paciente. Antes do tratamento, uma leve quimioterapia é administrada para preparar o organismo.

“Cerca de 24 horas após a infusão das células CAR-T tem início uma reação inflamatória, sinal de que os linfócitos modificados estão se reproduzindo e induzindo a liberação de substâncias pró-inflamatórias para eliminar o tumor. Além de febre, pode haver queda acentuada da pressão arterial [choque inflamatório] e necessidade de internação em Unidade de Terapia Intensiva [UTI]. O médico deve ter experiência com a técnica e monitorar o paciente continuamente”, disse.

O aposentado submetido ao protocolo no Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) no dia 9 de setembro já superou a fase crítica do tratamento, conseguiu se livrar da morfina – antes usada em dose máxima – e não apresenta mais linfonodos aumentados no pescoço.

“Além desses sinais clínicos de melhora, conseguimos detectar as células CAR-T em seu sangue e essa é a maior prova de que a metodologia funcionou”, disse Cunha.

De acordo com o pesquisador, somente após três meses será possível avaliar com mais clareza se a resposta à terapia foi total ou parcial – algo que depende do perfil biológico do tumor. Os linfócitos reprogramados podem permanecer no organismo pelo resto da vida, mas também podem desaparecer após alguns anos.

Fonte: http://agencia.fapesp.br/celulas-do-proprio-paciente-sao-usadas-em-tratamento-inovador-contra-o-cancer/31656/

Versão brasileira

O projeto que possibilitou a produção das células CAR-T teve início há cerca de quatro anos, quando foi renovado o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) ao CTC. Nesse período, foram conduzidos estudos fundamentais sobre as construções virais mais usadas para a modificação gênica, bem como estabelecidos modelos animais para os estudos pré-clínicos. Cerca de 20 pesquisadores, incluindo médicos e biólogos celulares e moleculares, além de engenheiros especializados em cultivo celular em larga escala, participam do projeto.

Mais recentemente, Cunha se incorporou ao time com a experiência clínica e laboratorial adquirida durante estágio realizado no National Cancer Institute, centro ligado aos National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos e pioneiro na técnica. Em dezembro de 2018, o pesquisador recebeu da Associação Americana de Hematologia (ASH, na sigla em inglês) o ASH Research Award e uma bolsa de US$ 150 mil para contribuir com o desenvolvimento da técnica na FMRP-USP. O projeto, no seu conjunto, teve apoio financeiro, além da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep), da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e do Ministério da Saúde.

“A metodologia que desenvolvemos é específica para o tratamento de linfoma, mas a mesma lógica pode ser usada para qualquer tipo de câncer. Estamos trabalhando em protocolos para o tratamento de leucemia mieloide aguda e para mieloma múltiplo. Também estamos acertando uma parceria com uma universidade japonesa com foco em tumores sólidos, como o de pâncreas”, contou Rodrigo Calado, professor da FMRP-USP e membro do CTC.

O objetivo do grupo, segundo Calado, é desenvolver tratamentos de custo acessível a países de renda média e baixa e possíveis de serem incluídos no rol de procedimentos do Sistema Único de Saúde (SUS).

Paciente com linfoma avançado e refratário à quimioterapia foi atendido em Ribeirão Preto por pesquisadores do Centro de Terapia Celular, um CEPID apoiado pela FAPESP; técnica conhecida como terapia de células CAR-T foi usada pela primeira vez na América Latina (foto: divulgação)

“O custo da terapia de células CAR-T é muito próximo do valor que o SUS repassa para um transplante de medula óssea – hoje em torno de R$ 110 mil. Então o tratamento pode ser considerado acessível”, disse Calado.

Covas lembrou que o CTC tem tradição em terapias pioneiras, entre elas a aplicação de células mesenquimais para tratamento de diabetes e o transplante de medula óssea em portadores de anemia falciforme.

“Só conseguimos desenvolver o protocolo CAR-T de modo relativamente rápido porque temos uma estrutura há muito tempo em construção. Esse investimento da FAPESP em ciência básica, em formação de pessoas e em infraestrutura de pesquisa agora se traduz em novos tratamentos mais eficazes contra o câncer”, disse o coordenador do CTC.

Veja mais detalhes no vídeo abaixo, onde o biólogo Lucas Souza, um dos coordenadores do projeto, fala mais sobre a terapia.

Referência: Karina Toledo (Agência FAPESP)

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